Bifurcação na Justiça*

Boaventura de Sousa Santos (Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra)
    Entende-se por bifurcação a situação de um sistema instável em que uma alteração mínima pode causar efeitos imprevisíveis e de grande porte. Penso que o sistema judicial brasileiro vive neste momento uma situação de bifurcação. O Brasil é um dos países latino-americanos com mais forte tradição de judicialização da política. Há judicialização da política sempre que os conflitos jurídicos, mesmo que titulados por indivíduos, são emergências recorrentes de conflitos sociais subjacentes que o sistema político em sentido estrito (Congresso e Governo) não quer ou não pode resolver. Os tribunais são, assim, chamados a decidir questões que têm um impacto significativo na recomposição política de interesses conflituantes em jogo.
    Neste momento, o país atravessa um período alto de judicialização da política.  Entre outras acções, tramitam no STF a demarcação do território indígena  da Raposa Serra do Sol, a regularização dos territórios quilombolas e as acções afirmativas vulgarmente chamadas quotas. Muito diferentes entre si, estes casos têm em comum serem emanações da mesma contradição social que atravessa o país desde o tempo colonial: uma sociedade cuja prosperidade foi construída na base da usurpação violenta dos territórios originários dos povos indígenas e com recurso à sobre-exploração dos escravos que para aqui foram trazidos. Por esta razão, no Brasil, a injustiça social tem um forte componente de injustiça histórica e, em última instância, de racismo anti-índio e anti-negro. De tal forma, que resulta ineficaz e mesmo hipócrita qualquer declaração ou política de justiça social que não inclua a justiça histórica. E, ao contrário do que se pode pensar, a justiça histórica tem menos a ver com o passado do que com o futuro. Estão em causa novas concepções do país, de soberania e de desenvolvimento.
    Desde há vinte anos, sopra no continente um vento favorável à justiça histórica. Desde a Nicarágua, em meados dos anos oitenta do século passado, até à discussão, em curso, da nova Constituição do Equador, têm vindo a consolidar-se as seguintes ideias. Primeira, a unidade do país reforça-se quando se reconhece a diversidade das culturas dos povos e nações que o constituem. Segunda, os povos indígenas nunca foram separatistas. Pelo contrário, nas guerras fronteiriças do século XIX deram provas de um patriotismo que a história oficial nunca quis reconhecer. Hoje, quem ameaça a integridade nacional não são os povos indígenas; são as empresas transnacionais, com a sua sede insaciável de livre acesso aos recurso naturais, e as oligarquias, quando perdem o controlo do governo central, como bem ilustra o caso de Santa Cruz de la Sierra na Bolívia.  Terceira, dado o peso de um passado injusto, não é possível, pelos menos por algum tempo, reconhecer a igualdade das diferenças (interculturalidade) sem reconhecer a diferença das igualdades (reconhecimentos territoriais e acções afirmativas). Quarta, não é por coincidência que 75% da biodiversidade do planeta se encontra em territórios indígenas ou de afro-descendentes. Pelo, contrário, a relação destes povos com a natureza permitiu criar formas de sustentabilidade que hoje se afiguram decisivas para a sobrevivência do planeta. É por essa razão que a preservação dessas formas de manejo do território transcende hoje o interesse desses povos. Interessa ao país no seu conjunto e  ao mundo. E pela mesma razão, o reconhecimento dos territórios tem ser feito em sistema contínuo, pois doutro modo desaparecem as reservas e, com elas, a identidade cultural dos indigenas e a própria biodiversidade.
    Estes são os ventos da história e da justiça social no actual momento do continente. Ao longo do século XX não foi incomum que instâncias superiores do sistema judicial actuassem contra os ventos da história, e quase sempre os resultados foram trágicos. Nos anos trinta, o ST  dos EUA procurou bloquear as políticas do New Deal do Presidente Roosevelt, o que impediu a recuperação econónimca e social que só a segunda guerra mundial permitiu. No início dos anos setenta, o ST do Chile boicotou sistematicamente as políticas do Presidente Allende que visavam a justiça social, a reforma agrária, a soberania sobre os recursos naturais, fortalecendo assim as forças e os interesses que ganharam com o seu assassinato.
    Em momento de bifurcação histórica, as decisões do STF nunca serão formais, mesmo que assim se apresentem. Condicionarão decisivamente o futuro do país. Para o bem ou para o mal.




* Texto gentilmente cedido pelo autor como contribuição especial ao Seminário "Povos Indígenas, Estado e Soberania Nacional", promovido pelo "Observatório da Constituição e da Democracia" - C&D, do Grupo de Pesquisa Sociedade, Tempo e Direito - STD, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília - UnB, e Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas - FDDI, evento realizado em 28 de maio de 2008, no auditório "Dois Candangos", da Faculdade de Educação da UnB.


Carta dos estudantes negros da UnB contra Timothy

Prezado André,
aqui lhe envio esta lúcida nota dos estudantes negros (cotistas e não cotistas) da UnB. Este documento foi escrito anteontem como uma reação política a uma declaração infame de Timothy Mulholland na sua coletiva de imprensa há três dias atrás, na qual ele afirmava que toda a pressão para sua saída se deve ao fato de que ele implementou as cotas na UnB e os contrários às políticas de inclusão querem sua cabeça. Como se nós, negros ou brancos, que apoiamos as cotas, tivéssemos que ser seus cúmplices ou aceitássemos apoiar a corrupção e o desvio de verbas públicas! E mais grave ainda, como se não existisse protagonismo negro na luta pelas cotas!

Rita Segato e eu também faremos proximamente uma nota de repúdio, da nossa perspectiva de professores brancos, diante desse argumento ignóbil do ex-Reitor.Peço-lhe que a envie a sua lista de contatos, para divulgar e esclarecer a posição dos alunos cotistas (e nossa também) da UnB diante dos escândalos ocorridos na nossa universidade. Não tem faltado colegas negros (apesar do número ter arrefecido) que acreditam que Timothy foi atacado por defender as cotas.

Atribuo essa visão a vários fatores: à compreensível paixão pela luta anti-racista na época da reação às cotas; à desinformação; ou mesmo ao que considero ser um equívoco de análise política - deixar passar a idéia de que a luta pela igualdade racial não necessita sustentar-se em princípios éticos e morais.

Estamos tirando Timothy porque revelou-se corrupto e anti-democrático e nos engajaríamos nessa luta pelo retorno da dignidade perdida da UnB independente de que ele fosse contra ou a favor das cotas. Uma vez afastada a quadrilha que loteou nossa universidade, faremos de tudo para que o nosso sistema de cotas funcione ainda melhor.

Um abraço,José Jorge


Articulação nacional de quilombolas protesta contra a Globo

 

 A CONAQ - Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas se prepara para realizar no próximo dia 5 de outubro um ato para questionar o papel das concessões públicas de televisão e o oligopólio das comunicações no país. O principal alvo da manifestação é a Rede Globo de Televisão, acusada de criminalizar e deslegitimar o movimento dos quilombolas. O ato pretende agregar outras entidades e movimentos sociais,  e a idéia é que nesse dia haja um boicote à programação da Globo e que se realizem atividades nos quilombos sobre análise de mídia.  Outras organizações que defendem a democratização da comunicação planejam manifestações para o mesmo dia para reivindicar transparência na outorga e renovação das concessões de rádio e televisão. A data foi escolhida pelas entidades pois nesse dia vencem as concessões da Rede Globo, TV Bandeirantes e TV Record.

A manifestação dos quilombolas é motivada por matérias recentes veiculadas na imprensa com conteúdo discriminatório e que contestam tanto a legitimidade das comunidades quanto o reconhecimento, pelo Incra, de territórios que foram ocupados por quilombos durante a vigência do regime escravocrata no Brasil. O estopim da indignação foi uma reportagem veiculada no Jornal Nacional do dia 14 de maio deste ano, onde a emissora acusa a comunidade remanescente de São Francisco do Paraguaçu, em Cachoeira – BA, de falsificar documentos e, portanto, fraudar seu processo de legalização enquanto comunidade descendente, já aprovado pela Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura. Em nota divulgada na época ( leia aqui), a CONAQ acusava a Rede Globo de manipular os fatos em benefício dos fazendeiros locais.

A primeira iniciativa da CONAQ foi entrar com um pedido de direito de resposta contra a Rede Globo, que ainda não teve retorno. Agora, do ponto de vista jurídico, a entidade pretende procurar o Ministério Público para tomar as medidas cabíveis. "A reportagem veiculada pela Globo foi forjada. As entrevistas com o nosso povo foram simplesmente ignoradas. Até a Rede Record chegou a fazer uma reportagem negando o que havia passado na Globo, mas por pressão dos fazendeiros, ela nem chegou a ir ao ar", descreve Clédis Souza, uma das coordenadoras da CONAQ.

Segundo os organizadores, a manifestação do dia 5 de outubro é mais uma oportunidade para demonstrar a insatisfação dos movimentos sociais com a mídia conservadora e suas investidas contra os setores populares. Clédis Souza diz que vários movimentos já foram contatados, como o MST e o movimento negro no sentido de se agregarem ao ato. "É importante, no dia 5 de outubro, que mostremos que também temos força para questionar esta emissora, fazendo um boicote que crie repercussão", conta.
 
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Confira o manifesto elaborado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas:
 
CARTA CONVOCATÓRIA
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - CONAQ, entidade representativa das comunidades quilombolas de todos os estados da Federação, convoca todas as entidades e movimentos sociais para construir o Dia Nacional de Repúdio à Emissora Rede Globo de Televisão. 

A nossa proposta é que o próximo dia 05 de outubro de 2007 fique marcado pela manifestação "GLOBO, A GENTE NÃO SE VÊ POR AQUI!", que irá expressar a indignação dos movimentos sociais criminalizados, direto ou indiretamente, por essa emissora.  

Nós, quilombolas, estamos vivenciando, como outros movimentos, de uma investida da REDE GLOBO com matérias que negam a nossa identidade étnica e contra o decreto 4887/03, que regulamenta o processo de titulação dos territórios de quilombos. 

Questionamos: 

. O jornalismo da Rede Globo, pois possui uma postura tendenciosa a serviço das oligarquias, cujos interesses sempre entram em conflito com os interesses das classes populares;
. A formação da opinião pública dessa mídia, já que essas matérias acabam contribuindo para um maior desconhecimento da luta dos quilombolas e de outras lutas, desarticulando os diversos movimentos;
. O ineficiente controle que todos os poderes públicos e sociedade possuem em relação a esta emissora, já que não se sabe quando se renova as suas concessões, não há fiscalização se os Direitos de Respostas são cumpridos, não há punições em relação às distorções cometidas, entre outras.

Sugerimos que neste dia (05 de outubro) sejam realizadas atividades, nas quais se discutam sobre o papel da Rede Globo na sociedade brasileira, analisando como essa emissora desrespeita a diversidade dos movimentos sociais e de entidades. 

A nossa postura política representa um ato de repúdio ao abuso de um grupo de mídia privado que se utiliza da concessão pública para descredibilizar aqueles e aquelas, que há mais de 500 anos, constroem a história desse país.

Contamos com a sua adesão.
 
Fonte:  http://www.direitoacomunicacao.org.br/novo/content.php?option=com_content&task=view&id=913
Autor: Henrique Costa - Observatório do Direito à Comunicação


Alunos querem entrar na Justiça contra decisão da UFRGS sobre cotas

Movimento Estudantil Contra as CotasPublicado no G1 em 29/06/2007.

O movimento contra cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pretende entrar com uma ação na Justiça contra a decisão do Conselho Universitário que aprovou a reserva de vagas no vestibular da instituição nesta sexta-feira (29).

Segundo Anderson Gonçalves, coordenador do movimento, a aluna Claudia Thompson, que faz parte do conselho, pediu vistas do processo durante a reunião desta sexta e teve a solicitação negada pelo reitor, José Carlos Ferraz Hennemann.

"Isso é contra o regulamento da universidade. Ela tinha o direito a vistas e ganharia dez dias úteis para apresentar um relatório", afirmou Gonçalves. Cláudia já tinha entrado com processo na Justiça para tentar adiar a reunião do conselho.

A assessoria de imprensa da UFRGS diz que não houve irregularidade e que aluna pediu vistas após o momento que era destinado a esse tipo de procedimento. Segundo a assessoria, não houve irregularidade alguma, pois o reitor não poderia conceder a solicitação, segundo as normas do conselho.

Gonçalves diz que seus advogados devem entrar com processo judicial na próxima semana contra o que houve na reunião do conselho e também para derrubar a decisão de adotar reserva de vagas na universidade. "No nosso entender, cotas é racismo porque separa as pessoas pela cor e a Constituição diz que 'todos são iguais perante a lei' ", afirmou. 

Questionado sobre a alegação dos grupos pró-cotas que dizem ser uma forma de reparar um preconceito histórico contra o negro, o estudante afirmou que não é justo outras pessoas pagarem pelo o que não fizeram. "Essas pessoas [alunos] não cometeram nenhum crime histórico e vão perder suas vagas por causa disso. O governo deveria melhorar o ensino fundamental e médio e não cotas",

 

 Reserva de vagas

A reserva de vagas será implantada a partir do vestibular 2008. Pelas novas regras, 30% das vagas serão destinadas a egressos de escolas públicas, e, metade dessas devem ser ocupadas por candidatos negros. O sistema de cotas deve ficar em vigor durante dez anos. 

Uma pesquisa feita pela universidade com os ingressantes de 2006, mostrou que apenas 6,35% dos 2.677 alunos se declaravam negros. De acordo com a UFRGS, isso é menos que a participação de negros na população gaúcha, que é de 12,8%.

 

 Polêmica

A votação da criação do sistema de cotas na UFRGS foi parar na Justiça. O reitor da universidade, José Carlos Ferraz Hennemann, conseguiu reverter na manhã desta sexta uma liminar concedida na quinta-feira (28) à noite pela Justiça Federal adiando a votação do projeto.

A liminar que interrompia a votação do projeto de cotas foi concedida pela juíza Paula Beck Bohn, da 2ª Vara da Justiça Federal, depois que a aluna Claudia Thompson entrou com uma ação alegando que a UFRGS não havia cumprido o prazo de cinco dias úteis para que os membros do conselho pudessem avaliar a proposta. Tentamos falar com o advogado Caetano Cuervo Lo Pumo, que representa a aluna, mas ele não foi localizado.

Segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, a juíza reconsiderou o pedido porque o reitor da UFRGS provou que a reunião dessa sexta-feira era a continuidade de uma reunião que foi iniciada no dia 15 de junho e que os conselheiros estavam cientes de que a proposta inicial do projeto sofreria mudanças.

O projeto inicial foi apresentado dia 15 e seria votado no dia 22 deste mês. Como houve várias emendas e recomendações, o projeto foi retirado e reapresentado pelo reitor com alterações. Desta forma, a Justiça entendeu que o prazo de cinco dias já foi cumprido.  

 

Vigília e protesto

Um grupo de aproximadamente 30 estudantes manteve uma vigília em frente à reitoria da UFRGS durante toda a madrugada. Eles defendem a aprovação do sistema de cotas para negros e índios como medida afirmativa e de enfrentamento às desigualdades sociais e ao racismo. Eles estavam confiantes de que um recurso da universidade garantiria a realização da votação da proposta ainda nesta sexta.


Federal de Santa Maria aprova sistema de cotas

Notícia publicada no G1 em 13/07/2007 
 
A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, destinará 10% de suas vagas para estudantes afro-brasileiros, 20% para egressos de escolas públicas e 5% para portadores de necessidades especiais a partir do vestibular 2008.
 
A medida foi decidida nesta sexta-feira (13) pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), que aprovou o Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social da instituição depois de cinco horas de reunião.
 
Os 37 conselheiros presentes à votação foram unânimes ao admitir que a universidade deveria implantar ações afirmativas e cotas sociais. Mas divergiram em relação ao documento apresentado pela Pró-Reitoria de Graduação com base numa série de debates iniciada no ano passado.
 
Um grupo que defendia a apreciação por itens, com direito à apresentação de destaques, acabou vencido pela maioria, que preferia aprovar ou rejeitar a íntegra do texto. Levado à votação, o projeto passou por um placar apertado: 19 a 18.

Os candidatos que se declararem afro-brasileiros terão direito ao aumento progressivo de cotas, de 10% em 2008 a 15% em 2013. Segundo a resolução da universidade, serão considerados afro-brasileiros, os candidatos que se enquadrarem como pretos e pardos, conforme classificação adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número de vagas suplementares, a serem criadas para os índios, aumentará de cinco em 2008 para oito em 2009 e 2010 e dez nos anos subseqüentes. A demanda das comunidades indígenas será apresentada anualmente pela Fundação Nacional do Índio (Funai) à universidade.

No próximo vestibular, em janeiro, a UFSM oferecerá 1.978 vagas em 37 cursos.

Recentemente, as universidades federais do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de Santa Catarina (UFSC) também aprovaram a política de reserva de vagas em seus vestibulares.


Universidade Federal de Santa Catarina define cotas para negros e estudantes carentes no vestibular

O Conselho Universitário da UFSC decidiu, em reunião realizada na manhã desta terça-feira, reservar 20% das vagas, já a partir do próximo vestibular, para estudantes oriundos de escolas públicas e 10% para negros, também formados em colégios de caráter público.

Caso o percentual de negros não atinja esse patamar, as vagas restantes serão destinadas a jovens vindos de outros tipos de estabelecimentos de ensino. Ao mesmo tempo, o Conselho garantiu cinco vagas para indígenas, com o aumento de uma nova vaga a cada ano letivo. A decisão vigora pelos próximos quatro anos, após o que poderá sofrer os ajustes que a administração da instituição e os demais membros do Conselho considerarem necessários.

“Destaco a maneira madura e serena com que a questão foi conduzida por todos os envolvidos”, disse o reitor da UFSC, Lúcio José Botelho, ao final do encontro, que teve a participação de representantes do movimento negro, de comunidades indígenas, de estudantes e da comunidade. Ele afirmou que houve discordâncias em alguns pontos, mas ressaltou a unanimidade em relação aos itens principais, que são as cotas para negros e estudantes carentes. Ao sair da sala do encontro, o reitor e os membros do Conselho foram aplaudidos pelos estudantes que aguardavam a decisão no andar térreo da reitoria da UFSC.

Integrante do Conselho, o estudante André Costa, acadêmico do curso de Administração da universidade, disse que os alunos pleiteavam uma cota de 50% para alunos originários de escolas públicas, mas considerou positiva a decisão tomada. Mesmo com um projeto de lei sobre o tema tramitando na Câmara dos Deputados, ele afirmou que a decisão da UFSC é definitiva, uma vez que as universidades têm autonomia para deliberar sobre o assunto. Entre as 57 instituições públicas de ensino superior no País, a UFSC é a 17ª a adotar o sistema de cotas, de acordo com notícias divulgadas ontem pela imprensa nacional.

O professor Marcelo Henrique Tragtenberg, membro do Conselho de Ações Afirmativas e do Conselho Universitário, que também participou do encontro, disse que no vestibular os candidatos beneficiados pelas cotas vão se submeter aos mesmos critérios de avaliação dos demais postulantes, como não zerar na prova de inglês e nas questões dissertativas. Professor do Departamento de Química, ele afirmou que cada curso, ao conhecer o número de vagas que deverá destinar a estudantes oriundos das escolas públicas, decidirá se cria novas turmas ou aumenta o número de alunos no turno da noite. “Cada curso precisa se pensar”, destacou ele.

Tragtenberg também disse discordar de alguns pontos do projeto em tramitação no Congresso, sobretudo porque ele ignora a diversidade de características sociais e étnicas de cada região do País e porque, ao levar em conta apenas o ensino médio, “não considera o recorte sócio-econômico do País”. Ao fazer um balanço a reunião, ele afirmou que “é muito bom pensar com várias cabeças”.


Encontro mostra jeito indígena de fazer pesquisa

Fonte: Instituto Sociambiental - 03/07/2007.

Professores e pesquisadores de 22 povos da Amazônia se reuniram no mês passado para trocar conhecimentos sobre as atividades de pesquisa desenvolvidas em suas aldeias. Destacaram, entre outros pontos, a importância do envolvimento de suas comunidades na produção, registro e transmissão dos saberes pesquisados e como as atividades de investigação, combinadas com o uso de novas tecnologias, têm estimulado as novas gerações a saber mais sobre sua própria cultura.

Representantes de 22 povos indígenas de diferentes pontos da Amazônia brasileira se reuniram no mês passado em Macapá, no Amapá, para trocar experiências, idéias e informações relativas às atividades de pesquisa que cada povo tem realizado para proteger e fortalecer suas culturas e conhecimentos tradicionais. A reunião ocorreu por ocasião do seminário “Experiências Indígenas de Pesquisa e Registro de Conhecimentos Tradicionais”, promovido pela Rede de Cooperação Alternativa Brasil (RCA-Brasil) entre os dias 18 e 23 de junho. O encontro reuniu representantes dos povos Aparai, Galibi-Marworno, Gavião, Ikpeng, Kaiabi, Karipuna, Katukina, Kaxinawa, Kaxuyana, Krahô, Marubo, Panará, Terena, Tiriyó, Tukano, Wajãpi, Wayana, Tuyuka, Yanomami, Yawanawa e Baniwa e de suas respectivas organizações e associações (veja lista abaixo).

Os relatos feitos pelos participantes do seminário demonstraram a variedade das experiências que vêm sendo desenvolvida em diferentes regiões do País e os diversos modos que os povos indígenas estão se apropriando de ferramentas tecnológicas e de metodologias científicas nas diferentes realidades, constituindo, assim, jeitos específicos de se conceber e fazer “pesquisa indígena”. Investigações feitas por professores e alunos, pesquisas para a formação de agentes de manejo ambiental ou de pesquisadores indígenas, estudos e levantamentos voltados ao fortalecimento cultural, manejo e sustentabilidade, e ao conhecimento do “mundo do branco” estão entre os temas apresentados no encontro.

De acordo com os relatos, o exercício de pesquisa vem funcionando como um importante meio para a produção e registro de conhecimentos nas escolas indígenas, nos cursos de formação de professores e de agentes agroflorestais. “Como os pesquisadores têm dificuldade de acessar nossas terras, a idéia é os alunos aprendam eles mesmo a serem pesquisadores da comunidade”, disse o professor baniwa Armindo Brazão. Os índios ressaltaram também que as pesquisas são importantes porque despertam nos mais jovens o interesse e valorização da própria cultura. “A gente pesquisa para aprender com aquele velho que sabe de uma coisa. Para não perder aquele conhecimento. A gente pesquisa porque os mais jovens não estão interessados no conhecimento nosso. Então a gente pesquisa para mostrar que nosso conhecimento também é bonito, não só o do branco”, disse o professor Sekĩ Wajãpi.

Participação das comunidades

O encontro propiciou uma primeira sistematização das diferentes formas de trabalhar a pesquisa e as metodologias utilizadas. Durante a conclusão do seminário, os participantes indígenas destacaram que o processo de decisão em relação às temáticas de pesquisa deve contar com a participação ativa dos membros das respectivas comunidades, o que deve se estender também à transmissão, produção e registro dos conhecimentos. Nesse sentido, as experiências desenvolvidas nas escolas baniwa, tukano e tuyuka, na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, foram referências deste modo “participativo” de fazer pesquisa.

Os professores João Bosco Rezende, da Associação Escola Indígena Tuyuka Utapinopona, Vicente Azevedo Rezende, da Associação Escola Indígena Tukano Yupuri, e Armindo Brazão, da Organização Indígena da Bacia do Içana, ao lado da antropóloga Melissa Oliveira, do Programa Rio Negro do ISA, relataram suas experiências em pesquisa sobre as “Paisagens Florestais Tuyuka”, “Astronomia Tukano”, “Manejo do Arumã”, “Identificação de espécies de Pimenta” e “Manejo dos peixes entre os Baniwa”. As apresentações dos representantes do Alto Rio Negro ainda demonstraram como é possível construir parcerias positivas entre pesquisadores indígenas e não-indígenas e entre os conhecimentos tradicionais e os métodos e técnicas da pesquisa cientifica.

Os participantes do seminário também perceberam que as experiências indígenas de pesquisa podem gerar produtos que beneficiam as comunidades de diversas formas: desde a elaboração de materiais didáticos para as escolas e a revitalização de práticas culturais, pouco conhecidas pelos mais jovens, até o registro e divulgação de cantos, danças, grafismos e artesanatos tradicionais. Esses registros podem inclusive ser utilizados em processos de proteção de conhecimentos relacionados à biodiversidade dos territórios indígenas e no reconhecimento oficial de patrimônio cultural.

Esse é o caso do Dossiê das Artes Gráficas Wajãpi, registrado como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em dezembro de 2002. “Posteriormente, as “Expressões Gráficas e Oralidade entre os Wajãpi do Amapá” obtiveram junto à Unesco o título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade”. Estes reconhecimentos da cultura wajãpi tem ajudado na revitalização de suas práticas nas próprias aldeias e na mobilização das comunidades em torno de ações que valorizem tanto as formas de transmissão oral como os conhecimentos relacionados.

Por outro lado...

Uma importante questão levantada durante o seminário diz respeito aos limites das pesquisas nos processos de fortalecimento cultural dos povos indígenas. “A relação dos índios com seus conhecimentos tradicionais não deve apenas ser intermediada pelas novas tecnologias, mas ser também vivenciada no cotidiano das aldeias”, afirma Rosana Gasparini, do Programa Xingu do ISA. “Por isso as pesquisas não são um fim em si, mas um caminho de redescoberta de identidades e saberes”. Nessa perspectiva, a prática das pesquisas não deve tirar a importância da transmissão oral do conhecimento, assim como o registro de conhecimentos (gravação ou escrita de cantos, danças, benzimentos, por exemplo) não substitui as próprias vivências (cantar, dançar, benzer).

Outra preocupação expressada pelos participantes indígenas trata dos cuidados que as comunidades devem tomar ao pesquisar sobre conhecimentos tradicionais, especialmente aqueles relacionados aos recursos naturais e à biodiversidade existente em seus territórios, para evitar que sejam apropriados de forma indevida pelos não-índios. Nesse caso, as línguas indígenas são reconhecidas como importantes formas de proteção no registro das informações, pois restringem o acesso ao conhecimento.

O seminário “Experiências Indígenas de Pesquisa e Registro de Conhecimentos Tradicionais” foi coordenado pelo Iepé e contou com o apoio da Fundação Rainforest da Noruega, USAID, Ministério do Meio Ambiente, Fundação Nacional do Índio, Instituto Internacional de Educação do Brasil e Fortaleza São José de Macapá.


Índio Karajá universitário espancado em São Paulo morre em Goiania

Matéria publicada no jornal 'O Popular' em 02/07/2007.
 
O índio Ijehederi Karajá, de 27 anos, estudante de Educação Física em uma universidade de São Paulo havia três anos, morreu ontem, no Hospital de Urgências de Goiânia, vítima de traumatismo crânio-encefálico provocado por espancamento. Ele pertencia à Aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal, no Tocantins, e teria sido atacado por três homens não-identificados, em uma cidade paulista. O delegado Kleyton de Oliveira Alencar, da Delegacia de Investigações de Homicídios, disse que até agora sabe-se que Ijehederi foi espancado quando tentou socorrer um amigo índio que estava sendo agredido pelos três homens.

Ijehederi Karajá chegou a Goiânia, na manhã do dia 21, de ônibus, e foi para a Casa de Saúde do Índio, no Jardim Bela Vista, que o encaminhou ao Centro de Referência em Oftalmologia (Cerof), do Hospital das Clínicas (HC), da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ele tinha sangue no olho esquerdo. Após avaliação médica, marcaram o retorno para o dia 25. Dia 22 à noite, com convulsões, foi encaminhado ao Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo)e, depois de examinado, transferido para o Hospital São Domingos, ficou internado até a manhã de quarta-feira.

Os exames constataram que Ijehederi Karajá havia sofrido traumatismo crânio-encefálico. Com novas convulsões, voltou a ser internado no Hugo, onde morreu por volta das 10 horas de ontem. A mãe dele, Idjahina Karajá, e a irmã, Krubi Karajá, estavam em Goiânia desde o dia 25, para acompanhá-lo. O corpo de Ijehederi foi levado ontem para a aldeia, onde será sepultado de acordo com os costumes indígenas.

O delegado Kleyton de Oliveira Alencar disse que vai pedir ajuda à Polícia Civil de São Paulo para saber em que cidade Ijehederi estudava Educação Física, se o crime tem relação com o ambiente universitário, quem é o outro índio agredido e se há alguma ocorrência policial registrada sobre o caso. Ele quer saber também se Ijehederi Karajá procurou assistência médica em São Paulo. A coordenação da Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que deverá divulgar uma nota sobre o caso hoje.


Começa Assim...


Pela Ampliação das Cotas

Por Juremir Machado da Silva - jornalista, escritor e professor da Pontífice Universidade Católica - Publicado no Jornal 'Correio do Povo' em 02/07/2007.
 
“Na semana passada, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul aprovou o regime de cotas raciais. É um grande avanço. E um grande retrocesso. O avanço é claro porque só com medidas de força como essa os negros terão realmente acesso às universidades. O retrocesso se dá em relação ao discurso iluminista da igualdade para todos e da anulação da raça como critério de distinção social. Até no racismo o Brasil é um país original. Não se proíbe um negro de fazer algo. Tudo é permitido. Só lhe falta a oportunidade. Essa falta eterna de oportunidade se tornou a maneira mais cômoda de manter tudo sem qualquer alteração. Não haveria necessidade de cotas se a sociedade, por meio de seus governos, provesse ensino básico de qualidade para todos e criasse vagas na universidade para todos os jovens aprovados num exame de saída do ensino médio. A França não tem cotas pelo simples fato de que não tem vestibular.

É muito mais fácil transformar a origem do problema em justificativa: a pobreza. Os negros não ficariam fora da universidade por serem negros, mas por serem pobres. Esse sofisma absolve o Brasil de crime de racismo, transfere o problema social para os indivíduos e possibilita que nada seja feito. Os governos, por outro lado, em vez de modificarem a estrutura injusta, jogam o problema de volta para suas vítimas. Em lugar de resolver o problema do ensino básico e das vagas nas universidades, sugerem que a massa se engalfinhe e divida as vagas do jeito que der. Aí tem de ser na base da porrada. Por exemplo, pela cor da pele. Raças não existem. É um conceito antropológico ultrapassado. Tudo é cultural. Ninguém pensa melhor ou corre melhor porque é branco, negro ou amarelo. Mas o preconceito racial persiste e muda de pele para continuar.

Ensino básico de qualidade para todos e vagas nas universidades significa redistribuição de renda. Algo que a elite brasileira não quer nem ouvir falar. Está bom assim. O Brasil é tão original que transformou o preconceito racial em questão de classe social. O sujeito é excluído por ser pobre, não por ser negro. Ora, como não se pretende eliminar a pobreza redistribuindo renda, os pobres vão continuar pobres e os negros vão continuar negros pobres. Salvo se meterem o pé na porta com mecanismos como as cotas. Os inimigos das cotas defendem que o vestibular é o regime do mérito. Bobagem. Não há mérito algum em ganhar de quem não teve oportunidade de se preparar. O mérito só há realmente quando resulta da disputa entre iguais, entre aqueles que tiveram chances equivalentes de preparação. O vestibular é uma armadilha de uma sociedade hipócrita para jogar jovens contra jovens de maneira a que a conta a ser paga pela sociedade e pelos governos em educação seja menor. O custo social, claro, é mais alto.

O Brasil misturou as raças quando era “normal” separá-las. Hoje, para que fiquem realmente juntas, vê-se obrigado a separá-las por critérios raciais ou as universidades continuarão totalmente abertas a negros que nelas não conseguem entrar. Somos uma das sociedades mais hipócritas do mundo. Praticamos um racismo dissimulado, matreiro e confortável. Negro é bom pra jogar futebol e fazer música. As cotas poderiam desaparecer num passe de mágica. Bastaria promover uma revolução educacional em três pontos: redistribuição de renda e investimento maciço em escolas públicas; fim do vestibular e instauração de um exame de saída do ensino médio, com acesso à universidade de todos os aprovados; mais vagas nas universidades públicas e mais bolsas para estudantes carentes em universidades privadas.

È tudo o que o Brasil branco e rico não quer fazer. Então, o jeito é ampliar as cotas. Aqui vão algumas: cotas de 30% para parlamentares honestos (quase 300, de um total de 513, sofrem algum tipo de processo ou de investigação no Congresso Nacional); cotas de 10% (não convém pedir muito no começo) de governantes eficazes e cumpridores das suas promessas de campanha; cotas 1% (vejam que é um índice relativo, modesto) de juízes dispostos a pôr na cadeia criminosos do topo da pirâmide; cotas de 0,5% de parlamentares decididos a mudar a legislação para acabar com a impunidade dos Maluf, dos Calheiros, dos Collor, dos Dirceu e outros. Por fim, cota de um bom meio-campista no time do Inter.”


Protesto anti-cotas

A partir das 13h de hoje manifestantes contrários à implantação de ações afirmativas na UFRGS reuniram-se no saguão da Reitoria. Faziam muito barulho e exigiam a presença do reitor. O publico era composto na maioria de jovens estudantes de cursinhos pré-vestibular, bem vestidos e invariavelmente brancos. As faixas traziam frases como "não somos racistas", "cotas racistas", etc.

Estudantes favoráveis às cotas que fotografavam a manifestação foram reconhecidos, vaiados e recomendados enfaticamente pela segurança a deixarem o local.

As diferenças entre a manifestação contrária e as favoráveis  à implantação das ações afirmativas na universidade eram notáveis: Hoje, na Reitoria, predominava uma certa uniformidade de jeitos e modas, denunciando também uma origem comum dos manifestantes, que além do mais estavam bastante irritadiços e provocativos. Muito diferente da diversidade e alegria vistas nas manifestações ocorridas nos dias de votação do CONSUN. 


Clientes de cursinhos caros como o Mauá e o Mottola protestam na Reitoria.


Estudantes das classes privilegiadas exigem o fim das cotas raciais e sociais.


Movimento anti-cotas não se considera racista. 


Brilho, batom e fivelinhas no protesto anti-cotas. 


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Professor da UnB é punido com suspensão por racismo

Prof. Paulo Kramer punido pelo crime de racismo na UNB
Fonte: Afropress - 03/07/2007
 
Brasília - O professor Paulo Roberto da Costa Kramer, do Curso de Mestrado em Ciências Políticas, da Universidade de Brasília (UnB) foi considerado culpado pela Comissão processante que apurou a prática de racismo, e punido com pena de suspensão de trinta dias, convertida em multa de 50% dos seus vencimentos.
 
A pena de 30 dias, segundo Ato da Reitoria 998/2007, assinado pelo reitor Timothy Mulholland datado de 29 de junho, começou a ser cumprida a partir desta terça-feira, 02 de julho. O reitor acatou integralmente o parecer da procuradora federal Cíntia Tereza Gonçalves Falcão, que também posicionou-se pelo envio do caso ao Ministério Público Federal para apuração, em processo criminal, das afirmações de cunho racista que teriam sido feitas por Kramer.

É a primeira vez, em toda história da UnB, que um professor é acusado e punido por crime de racismo. O estudante Gustavo Amora, que denunciou o caso, disse que a decisão da Universidade "é um fato histórico.". Kramer foi considerado culpado por ter se referido a negros como "crioulada" e chamado o estudante Gustavo Amora de "negro racista" e membro da "ku klux klan negra", em reação às denúncias do estudante. As referências depreciativas ocorreram numa aula no início do ano passado. Ele negou que as expressões tivessem caráter depreciativo.

Punição
A procuradora Cíntia Falcão, porém, entendeu que Kramer contrariou vários artigos da Lei 8.112 (que trata do regime jurídico do funcionário público federal), bem como praticou comportamento previsto no artigo 20 da Lei 7.716/89 (Lei Caó), praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional .

A comissão processante, presidida pelo professor Alexandre Bernardino, do Departamento de Direito, e integrada pelos professores Carla Costa Teixeira e José Leonardo - respectivamente, dos Departamentos de Antropologia e Física - foi constituída em julho do ano passado e tinha o prazo de 30 dias, prorrogáveis por igual período. A entrega do relatório, contudo, só aconteceu no dia 11 do mês passado, quase um ano depois. A demora levantou suspeitas de que o caso "terminaria em pizza" pelo fato do acusado ser pessoa influente e que acabaria contando com uma certa espírito corporativo - comum nesses casos.

Não foi o que aconteceu. Segundo a Comissão, ficou comprovada conduta de Kramer em desacordo com com o artigo 116, incisos II (ser leal às instituições que servir); III (observar as normas legais e regulamentares) IX (manter conduta compatível com a moralidade administrativa) , XI (tratar com urbanidade as pessoas) e o artigo 117, inciso XV, (proceder de forma desidiosa) todos da Lei 8.112/90."

A Comissão entendeu também que o servidor praticou comportamento descrito no artigo 20 (praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional) da Lei 7.716/89 – (redação dada pela Lei n. 9.459/97).

Ao contrário dos trabalhos da Comissão, o Relatório tramitou em tempo recorde. No dia 11 foi entregue ao reitor; no dia seguinte – dia 12 – foi despachado à Procuradoria; no dia 20, a procuradoria emitiu parecer ; e no mesmo dia 20 saiu o despacho final do reitor aprovando parcialmente o Relatório da Comissão processante e integralmente o parecer da Procuradoria jurídica.

Ouvidoria
O estudante Gustavo Amora, do Curso de Mestrado em Ciências Políticas, que denunciou o caso, disse que passou um ano de sofrimentos e perseguições. "Me acusaram até de com a denúncia ter arrumado um factóide para me promover. A decisão da Reitoria fez justiça e mostrou que os que me atacaram estavam errados", afirmou.

Amora ressaltou ter sido esta a primeira vez na Universidade em que "um ato de racismo é investigado e punido" e destacou a importância da criação de uma Ouvidoria para Crimes Raciais na Universidade, para que se evite a demora na apuração de casos desse tipo.


Sete Mitos Sobre as Cotas Étnico-Sociais na UFRGS

Por Marcito Galvão da Luz, pesquisador, educador em Alvorada/RS e mestrando em Ciência Política na UFRGS.
 
Uma vez aprovada as cotas étnico-sociais para a UFRGS, vigorando a partir do Vestibular de 2008, é de se esperar uma guerra jurídica e a presença de muitas contestações. De qualquer forma, o primeiro passo para a superação de um estado conservador foi dado. Nesse sentido, aproveitamos este espaço para sistematizar algumas questões que, em forma de mitos, têm substanciado alguns argumentos anti-políticas afirmativas e, principalmente, anti-cotas. 

 

1) Enquetes em programas televisivos e de rádio têm demonstrado que, aproximadamente 80% das pessoas têm se posicionado contra as políticas afirmativas. Isso significa que a maioria é, efetivamente, contra? 

De jeito algum! Na hipótese mais otimista, as enquetes televisivas ou apresentadas em programas de rádio têm por objetivos a produção de notícia, a fabricação da unanimidade e refletem o pensamento do(a) (tele)espectador(a). Essa linha de raciocínio é convergente com o Controle da Opinião Pública de Nilson Lage. E reflexões importantes sobre o tema foram escritas por Pierre Bourdieu, em A Opinião Pública Não Existe, no qual faz duras críticas à opinião dos(as) jornalistas, pode ser acessada aqui:

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/12/341663.shtml.  

2) A maioria dos(as) estudantes é contrário às cotas étnico-sociais? 

Esse é o segundo mito. A resposta é negativa, pois a formulação da pergunta pressupõe rejeição às cotas étnicas e, ao mesmo tempo, às cotas sociais. Além disso, é preciso considerar que as discussões sobre o tema perduraram por, aproximadamente, cinco anos. Um mecanismo que poderia ter sido viabilizado, durante este período, é a realização de um referendo, contendo uma ou, para obter maior precisão nos resultados, duas questões. Outra alternativa poderia ser a realização de pesquisa de opinião, com amostragem probabilística ou por cotas representativas de cada segmento da Comunidade Universitária. A partir dela poderíamos ter sabido, com maior exatidão, quais e onde estariam os focos de apoio e resistência às cotas étnico-sociais, considerando todas as justificativas para tal e, principalmente, ter proporcionado condições para que uma das funções de pesquisa de opinião emergisse: o desencadear debates. Também é preciso considerar que as discussões transcendem a Universidade, mesmo se o referendo ou a pesquisa de opinião tivessem sido levados a cabo. Além disso, de qualquer forma o “lado” perdedor poderia contestar o resultados obtidos. 

3) As políticas afirmativas, especialmente as cotas étnico-sociais, são um ataque à igualdade? 

Negativo. Trazemos à baila citação de Sabrina Moehlecke (2002), tal como constante na Proposta para Implantação de Programa de Ações Afirmativas na UFRGS:

No mesmo ano que é promulgada a nova Constituição, que traz em seu texto novidades como a proteção ao mercado de trabalho da mulher, como parte dos direitos sociais, e a reserva percentual de cargos e empregos públicos para deficientes, o Título II . Dos Direitos e Garantias Fundamentais, capítulo II . Dos Direitos Sociais, Artigo 7º, estabelece como direito dos trabalhadores a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei. E o Título III . Da Organização do Estado, capítulo VII . Da Administração Pública, no seu Artigo 37, estabelece que a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão. Esse trecho é interpretado por alguns juristas como prova da legalidade das ações afirmativas. Esse conjunto de iniciativas, no âmbito do Poder Público, indica um parcial reconhecimento da existência de um problema de discriminação racial, étnica, de gênero e de restrições, em relação aos portadores de deficiência física no país sinalizado por meio de algumas ações. Entretanto, estas ainda são muito circunstanciais e políticas mais substantivas não são implementadas. (2002, p.66)

Considerando os dados existentes, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar de 2004, no Rio Grande do Sul a população negra foi mensurada em de 12,8% e, apenas na Região Metropolitana de Porto Alegre, foi calculada em 14,5%. O analfabetismo da população branca é de 4,9%; da negra, 9,3 e, entre pardos/as, 10%. O analfabetismo funcional foi contabilizado em 15,5% para brancos, 23,4% para negros e 26,9% para pardos. Os reflexos dessas estatísticas são evidentes no mercado de trabalho: pessoas ocupadas brancas possuem, em média, 7,9 anos de estudo e percebem, em média, 3,5 sm; pessoas ocupadas negras possuem, em média, 6,5 anos de estudo e percebem 2,2 sm. No entanto, sabe-se que a média pode apresentar distorções, pois a partir dela todo mundo tende a ser bom, perfeito(a) e maravilhoso(a). Pode-se analisar os problemas que a média no segundo capítulo de Como Mentir com a Estatística, por Darrell Huff, disponível em:

http://www.usuarios.unincor.br/nhtlemes/cpu/mentir.asp. 

     Os dados a seguir são referentes ao Projeto Conexão de Saberes, obtidos no primeiro semestre de 2006, e coletados obrigatoriamente entre todos(as) que ingressaram na UFRGS. Quando questionados(as), 91,52% declarou-se branco, 1,64% preto, 4,26% pardo, 0,82% amarelo, 0,45% indígena e 1,31% não informou. Pretos, pardos e indígenas somam, portanto, 6,35% (n=2.677). Sobre o tipo de estabelecimento de origem, a escola particular atingiu maioria considerável (62,2%) e a escola pública totalizou 36,8% das respostas. Exatamente por isso é que as cotas sociais são importantíssimas, pois a distorção é muito grande e os resultados mostram, inequivocamente, que a lógica do vestibular reproduz a lógica da concentração e das desigualdades econômicas.  

     É preciso considerar que o perfil dos(as) estudantes da UFRGS refletem as profundas desigualdades, sobretudo as de origem econômica. Nos termos de Charles Wright Mills no último capítulo d’A Elite do Poder, trata-se de alta imoralidade, cuja aceitação passiva é característica da sociedade de massas. Os resultados da pesquisa acima apresentada também indiciam que pode haver correlação entre cor de pele, tipo de estabelecimento de origem e curso em que o(a) estudante se encontra – talvez daí a resistência pelas cotas nos cursos mais disputados, tais como medicina, direito, administração, psicologia, e por aí vai. Se os dados referentes aos fatores étnicos das minorias apontadas refletem as desigualdades econômicas, é de se esperar que esses(as) se encontram em cursos menos disputados e em relativa compatibilidade com seu condicionamento econômico. Para saber disso com a exatidão necessária, seria preciso obter o banco de dados original e fazer cruzamentos, seguido de testes de qui-quadrado e regressões. Esse tipo de análise poderia contribuir para destruir o mito de que as cotas tenderão a beneficiar a estudantes financeiramente abastados(as) e que, ao mesmo tempo, estudam em escolas públicas. 

4) As cotas étnico-sociais aumentarão o preconceito, sobretudo as práticas racistas? 

Da mesma forma que Adam Przeworski demonstrou, em Capitalismo e Social-Democracia, a lição histórica de que não se faz profundas transformações a partir do voto, é preciso considerar que as práticas racistas também não podem ser forjadas por decreto. Nesse sentido, estamos única e exclusivamente no terreno da cultura. 

5) Ou, inversamente: as cotas, especialmente as étnicas, representam o enfrentamento ao racismo? 

Por motivos explicitados na questão anterior, mais uma resposta negativa. Na melhor das hipóteses, ela pode ser positiva no sentido de que pode proporcionar, indiretamente, a convivência e a interação entre pessoas de origens étnicas e com trajetórias diferentes. Especificamente, trata-se de enfrentamento ao desafio da tolerância. 

6) As cotas étnico-sociais são políticas públicas incompatíveis com o reforço do/no Ensino Fundamental? 

Negativo. As políticas afirmativas são medidas emergenciais com o objetivo de compensar, em curto prazo, uma geração a partir do reconhecimento de um problema. Contudo, não desconsideram o necessário reforço do Ensino Fundamental, focalizando principalmente a qualidade, e as políticas públicas direcionadas à melhoria na educação tendem a apresentar resultados apenas em longo prazo. Para o enfrentamento deste problema estrutural, talvez seja necessária ampla reforma educacional. Ao mesmo tempo, mais mecanismos de controle sobre o poder. Em investigação do próprio autor deste texto sobre os principais problemas existentes em Alvorada/RS, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre e com menor PIB per capita do Rio Grande do Sul, a educação aparece como décima prioridade entre eleitores, o que abre precedentes para que tais políticas públicas sejam mais episódicas do que sustentáveis, nessa cidade. Daí pode-se compreender as tentativas de sloganização, como se alguns partidos políticos fossem proprietários da “escola cidadã”.  

7) A mídia pautou o debate sobre as cotas étnico-sociais? 

A resposta é negativa. Essa dúvida surgiu a partir de artigo de Bruno Lima Rocha, doutorando em Ciência Política na UFRGS, e foi publicada em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=63279. O argumento central é o de que existe tolerância ao pensamento de esquerda nas instituições de Ensino Superior, mas dificilmente a presença popular na Universidade. Porém, pode-se levar em conta que a tentativa de pauta do tema, pela imprensa gaúcha, se deu de maneira silenciosa. Isso tem um significado bastante claro, revelador de uma das limitações dos estudos que relacionam mídia e política: nem sempre essa relação pode ser feita a partir do conceito de visibilidade, pois a maior parte das principais decisões políticas é invisível. Além disso, havia um consenso no Conselho Universitário, relativo à necessidade de implantação de políticas afirmativas na Universidade. É o que pode-se depreender a partir da análise das discussões que constam nos documentos da versão anterior à aprovada, disponíveis em http://www.ufrgs.br/daef/Cotas.html. Nessa discussão, o voto divergente não recusa a necessidade de ações afirmativas na Universidade. Argumenta que, considerando os dados referentes ao Vestibular de 2006, o modelo de cotas afetará quantitativamente o grau de disputa nos cursos mais concorridos, especialmente a Medicina. 


VITÓRIA! A UFRGS adota sistema de cotas.

 

Não adiantaram as manobras contrárias, as pichações racistas, os argumentos desqualificantes. O movimento em favor das ações afirmativas venceu!

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul dá um passo importante no combate ao racismo e às desigualdades sociais, étnicas e políticas que ora vigoram na sociedade brasileira. Por 43 votos a favor e 27 contra foram aprovadas as cotas étnico-raciais e sociais na Universidade. A proporção estabelecida foi de 15% para auto-identificados negros, 15% para egressos de escolas públicas e 10 vagas para indígenas.

O Movimento Estudantil Liberdade e a conselheira Claudia Thompson prometeram recorrer judicialmente do resultado democrático e legítimo da votação no CONSUN. A imprensa gaúcha igualmente continuou dando voz aos opositores e procura deslegitimar a conquista. Pelo menos um grupo de skinheads foi visto rondando as proximidades da reitoria durante a tarde.

Por outro lado, autoridades, movimento negro, movimento estudantil, movimento indígena, categorias sindicais, movimentos sociais e uma série de outras organizações da sociedade civil, sem contar com os apoiadores espalhados por todos os rincões, festejaram essa vitória histórica. Na comunidade da UFRGS do Orkut vários tópicos discutiam a aprovação das cotas; ao lado das manifestações de apoio, centenas de manifestações contrárias e racistas afirmavam que "não fariam trabalho em grupo com cotista" ou que "nem trote dariam em cotista. Porque trote é para quem estuda".

No final, os manifestantes deram a volta no campus central soando os tambores e anunciando a boa nova!


COTAS SÃO UMA REALIDADE NA UFRGS!

AGORA É PRA VALER! 

Final da reunião: vitória das ações afirmativas
Negros, índios, estudantes e ativistas comemoram no hall da reitoria.

Movimento indígenas e negro comentam o resultado da votação Zaqueu Key Claudino, professor bilíngüe Kaingang comenta a importância da existência das ações afirmativas para seu povo.

Para ter acesso a mais fotos clique aqui


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