Nazistas planejam recrutar quadros incitando ódio contra as cotas raciais


Fonte: Agência Senado
O senador Paulo Paim (PT-RS) se disse nesta quarta-feira, 27, indignado com os atos que ele qualificou como racistas, praticados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que está debatendo a adoção de quotas raciais em seu vestibular. De acordo com Paim, há pichações no campus universitário ofendendo os negros. Durante seu discurso, Paim leu artigo publicado pelo jornalista Paulo Santana criticando o racismo.
- Demonstraremos toda a nossa solidariedade à Universidade e a nossa indignação contra a postura desses grupos nazistas, fascistas, diria, que estão envergonhando parte do povo gaúcho - disse Paim, referindo-se a visita que ele e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) planejam fazer ao reitor da UFRGS.
O senador gaúcho também lamentou os recentes casos de violência envolvendo jovens, como os casos dos estudantes que agrediram uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e de uma briga de torcedores no Rio Grande do Sul que terminou com a morte de um deles.
Por Paulo Santana, publicado originalmente no site da Zero Hora
De repente, terá aflorado a vocação racista gaúcha e brasileira nas
pichações feitas em torno do Campus Central da UFRGS e no Orkut, com
base na discussão sobre as cotas raciais para ingresso nas
universidades?
As pichações são de uma violência verbal
revoltante: "Negro, só se for na cozinha do Restaurante Universitário".
"Voltem para a senzala".
E a mais sórdida frase racista que já li, no Orkut: "Eu não tenho culpa de ter nascido com a cor certa".
***
Se
eu estivesse indeciso sobre o mérito das cotas raciais, depois de ter
lido essas frases me declararia inteira e definitivamente a favor
delas.
Por isso só é que gostaria de saber se essas frases
foram escritas mesmo por brancos. Se elas refletem mesmo o ódio e
desprezo que são dedicados aos negros ou se foram postas no muro e na
Internet apenas para garantir maior apoio às cotas raciais.
***
Eu
tendo a ser favorável às cotas raciais. Porque na Bahia 85% da
população é constituída por negros. E freqüentam o Ensino Superior em
torno de apenas 10% de negros. Se é assim na Bahia, pior deve ser nos
outros Estados.
Isso é a exacerbação clara e manifesta contra
uma raça, impedida de ter acesso ao progresso pessoal, profissional e
social através dos séculos.
***
Dir-se-á
que a discriminação no ensino brasileiro não é racial, é social, os
pobres não têm acesso a universidades públicas, negros e brancos, o que
é verdade.
Na Bahia, a cota social resolveria o problema. Como
a maioria arrasadora da população é negra, fatalmente com a cota racial
os negros acabarão ingressando na universidade.
Mas e nos
outros Estados, onde a maioria dos pobres é branca, como se poderia
regenerar a passos largos a discriminação ancestral contra os negros?
Nunca se daria.
Acabaria acontecendo que mais brancos ingressassem nas universidades gratuitas: dessa vez os brancos pobres.
***
O
ideal é que se fizesse a cota racial junto com a cota social. Os
negros, discriminados não só na universidade como nos empregos,
poderiam então aos poucos obter a revanche histórica contra a opressão
amassante que sempre sofreram concorrendo com as duas chances.
É
muito difícil compreender que se deva dar um privilégio aos negros para
ingresso no Ensino Superior público. Porque é muito difícil de entender
que haja racismo no Brasil.
Pelo simples fato de que a maioria
larga dos racistas não sabe que é racista, não tem consciência de que
discrimina. Só se conhecerá a si própria no dia que a filha vier
anunciar que está namorando um negro. Como é muito raro uma branca
namorar um negro, essa falta de consciência vai perdurando pelos
séculos.
***
O que tem de ser eliminado é
o privilégio gritante das camadas economicamente mais altas da
população, que vêm tendo através dos tempos a exclusividade para
ingresso nas universidades públicas. Um monopólio dilacerante para os
pobres.
Se na universidade pública têm assento quase que
privativo as elites, nas privadas nem se fala. O que se cobra hoje de
mensalidades nas universidades privadas torna completamente proibitivo
aos pobres acessá-las.
Temos então dois círculos de inferno para os pobres e os remediados: o âmbito escolar público e o privado.
***

Resposta do Levante Popular da Juventude a acusação de ameaça física aos conselheiros do CONSUN no jornal Zero Hora.
Nós, militantes do Levante Popular da Juventude , manifestamos nosso absoluto
repúdio à manipulaçao grotesca operada pelo Jornal Zero Hora com o
objetivo claro de transformar nossa disposiçao em debater com os Conselheiros
da UFRGS sobre as cotas em uma ameaça de agressão aos mesmos.
A reportagem do dia 22 de junho da ZH, sobre a suposta coação que os
conselheiros da universidade estariam sofrendo, é o ápice de um processo de
manipulação orquestrado pela mídia contrária as cotas e aos movimentos sociais.
Este trabalho de distorção da verdade começou há quase dois anos com o
ocultamento da mobilização dos segmentos da sociedade favoráveis as cotas . No
último período, a grande mídia, além de velar as mobilizações em defesa da
democratização da universidade, tem superdimensionado as ações políticas do
embrionário "movimento" anti-cotas.
Por último, a reportagem acima citada acusa o Levante da Juventude de
estar coagindo os conselheiros da UFRGS através de mensagens aeletrônicas. Para
sustentar tal disparate, ZH descontextualiza uma frase do e-mail enviado por
nossa organização no qual unicamente nos colocavamos a disposição dos
conselheiros para levar a eles informações sobre a proposta de cotas na UFRGS.
A mínima leitura do próprio quadro da ZH, na página 39 da edição de 22/06/07,
onde aparece apenas parte de nossa mensagem, já mostra que nós estavamos
claramente colocando-nos à disposição para levar o debate e as informações a
todos os conselheiros que o desejassem, no local em que escolhessem. Por isso
indicamos "saber onde trabalhavam" (dado público, pois são funcionários
da Universidade Federal) e que poderíamos "acompanhá-los onde fosse
preciso", ou seja, levar informações àqueles que não vieram às dezenas de
debates realizados sobre as cotas na UFRGS, no local que estes determinassem.
Este foi o sentido único e claro da mensagem.
Evidência de que o e-mail enviado não continha ameaças aos destinatários é a
resposta que alguns conselheiros enviaram aceitando o convite ao diálogo e
inclusive elogiando a nossa atidude de abertura ao debate. [Para que não pairem
dúvidas sobre o conteúdo do e-mail anexamos a esta nota a mensagem na integra
juntamente com a resposta emblemática de uma das conselheiras que o recebeu.]
O debate e a troca de idéias que nos propomos a realizar com os conselheiros é
um processo inerente às sociedades democráticas do qual ninguém precisa ter
medo. Só tem medo do debate quem sabe que suas posições só se sustentam por seu
poder econômico e não pela justiça de suas propostas.
Além de produzir acusações infundadas, é curioso que este periódico tenha concedido
espaço na matéria apenas a um professor sabidamente anti-cotas sem dar voz ao
contraditório, atitude completamente contrária às regras elementares do
jornalismo democrático.
A capacidade de distorção dos fatos se torna ainda maior quando se sabe que
dentre os coordenadores do movimento anti-cotas na UFRGS existem pessoas como
Gabriel Marchesi, que já se declarou fascista e admitiu ter convocado pessoas
identificadas com a causa Nacional-Socialista no Brasil, para pensar,
"juntos, uma maneira eficaz de deter esses odiosos vermes judeus.",
publicado em reportagem divulgada na Folha de São Paulo em 08 de junho de 2005,
fato negligenciado pela mídia gaucha. Ou seja, enquanto a Zero Hora necessita
manipular fatos para desconstituir o movimento pró cotas, simplesmente ignora
fatos concretos e públicos sobre o caráter de alguns integrantes do grupo que
rejeita as ações afirmativas e que demonstram as verdadeiras intenções e
motivações de um segmento dos promotores da campanha contra cotas.
Sabemos que por trás desta reportagem há uma campanha difamatória permanente da
grande mídia contra os movimentos que lutam pela igualdade e pelos direitos
humanos. Mas a tática de deturpação da verdade empreendida por este periódico,
com tal manipulação grotesca contra o Levante da Juventude assemelhasse
claramente aos método dos defensores da ditadura quando acusavam de terrorismo
aqueles que lutaram pela democracia.
Reforçamos, portanto, nosso posicionamento de abertura ao debate com todos
aqueles que se dispuserem a tanto e rejeitamos qualquer tentativa
anti-democrática de desqualificação dos setores da sociedade que historicamente
lutam por uma sociedade menos excludente.
Não nos intimidaremos com ataques vís aos nossos movimentos. Sabemos que esta
não é a primeira nem a última vez que nossos movimentos são atacados
covardemente pela grande mídia. Mas também sabemos que quando os de cima
tremem, é porque os de baixo se levantaram. E certamente porque acertaram no
seu ponto fraco. A disposição democrática ao debate franco de idéias e fatos.
Com certeza se nosso trabalho gerou tamanha indignação por parte das forças
conservadoras é porque, também graças a ele, estamos mais perto de ver a UFRGS
democratizada através das cotas raciais e sociais.
PÁTRIA LIVRE!
VENCEREMOS!!
Levante Popular da Juventude
Cópia integral da mensagem enviada aos Conselheiros da UFRGS:
"Cara
conselheira, somos do Levante Popular da Juventude, organização onde se articulam
os jovens de diversos movimentos populares (como o Movimento dos Desempregados-
MTD, Pastorais de Juventude, Catadores, MST, Resistência Popular,
Pequenos Agricultores- MPA, Atingidos por Barragens-MAB, Via Campesina, etc).
Queremos debater com você sobre a aprovação das Cotas na UFRGS no dia 29 de
junho. Nos colocamos a inteira disposição para dialogar com você sobre a
proposta, de forma a dirimir todas as tuas dúvidas para que possas votar a
favor da proposta da Comissão Especial com muita tranquilidade. Sabemos seu
nome e onde você trabalha. Por isso, podemos acompanhá-lo como for necessário.
Se desejar, podemos fazer uma conversa pessoalmente, ou trocarmos questões por e-mail mesmo. Apenas insistimos que, no que depender de nós, não evitaremos esforço algum no sentido de dirimir todas as tuas dúvidas sobre a proposta de cotas.
Não falaremos demais aqui. Ficaremos no aguardo de sua resposta sobre se já tem alguma posição definida, se tem dúvidas ou temas que ainda gostaria de aprofundar. Por hora, apenas gostaríamos de dizer que:
1. Todos reconhecemos que a UFRGS, como uma universidade federal, hoje não reflete a sociedade brasileira. 80% dos alunos brasileiros estudam em escolas públicas, mas há cursos na UFRGS como medicina, direito, odontologia, engenharia da computação, psicologia, biomedicina, nutrição, etc, em que menos de 1% dos alunos provém de escolas públicas. Por outro lado, 48% da população brasileira é negra, mas menos de 2% dos estudantes da UFRGS o são. Não há nenhum estudante indígena em toda a universidade.
2. Isso mostra a necessidade de Ações Afirmativas urgentes para mudar este quadro. Mas não precisamos inventar a roda para achar as soluções. O movimento anti-racismo no Brasil já estuda sobre isso há mais de 30 anos e já apontou as melhores soluções que já se encontrou até hoje: políticas públicas de combate às raízes do racismo (como o estudo da história da África e dos negros no Brasil que finalmente foi aprovada em 2005), políticas de combate a pobreza (visto que 83% dos pobres do Brasil são negros) mas, como medida emergencial COTAS para negros e indígenas aonde quer que estas populações estejam, recorrentemente, subrepresentadas. As cotas não são políticas novas. Foram usadas para combater desigualdades de gênero (como para mulheres em disputas eleitorais) e para portadores de necessidades especiais, entre outros. As cotas não são favor nem empurrarão para dentro da universidade pessoas incapazes. Quem necessita de cotas é a própria universidade, que tem um número tão ínfimo de vagas para sua demanda e um critério de definição dos aprovados tão questionável, que necessita definir para si uma cota de determinads populações que passarão a compô-la, desde que qualificadas, as quais, sem tais cotas, permanecerão fora da universidade. As cotas servirão para a própria universidade medir seu grau de inclusão social e ir ampliando sua diversidade interna de forma qualificada.
Por tudo isso, nós do Levante da Juventude, que há 3 anos atrás eramos contra cotas, hoje exigimos Cotas Raciais e Sociais na UFRGS, já. Nós fomos atrás de informações, estudos, e aprendemos muito. E, não a toa, defendemos na Comissão Especial uma proposta de Cotas de 60%. Sendo 40% sociais (medido por renda, como na UERGS) e 20% raciais. Mas na negociação com a Comissão Especial eleita pelo CONSUN fomos recuando na negociação até chegarmos ao limite de 20%+20% (sendo sociais por escola pública e não renda) em 2010, 15%+15% em 2009 e 10%+10% em 2008. Por isso, não aceitaremos menos do que isso. Muita injustiça ainda permanecerá dessa forma, mas já será um avanço para a universidade ao menos esta proposta. Uma negativa neste sentido seria uma reafirmação de que a UFRGS deseja permanecer sendo a universidade mais segregada do país que ocupa, simultaneamente, a piores posições nos indíces de desigualdades sociais e de segregração racial no mundo. Por isso, não exitaremos em fazer o que for necessário para garantir esta aprovação. Inclusive por sabermos que mais de 30 universidades já adotaram tais políticas pelo Brasil a fora e apenas ganharam com isto.
A UFRGS não pode alienar-se destas informações e agir como um avestruz. Até porque, fora do buraco onde os Conselheiros poderiam esconder seus rostos estão milhares de pessoas sedentas por justiça.
Reafirmamos que ficaremos aguardando para receber sua resposta indicando sua posição neste debate, e nossa total disposição em apresentar, detalhada e gentilmente as justificativas que nos levam a apoiar proposta da Comissão Especial.
Atenciosamente,
Levante Popular da Juventude.
18 de setembro de 2007"
Resposta integral da conselheira do
Consun Roseli Pereira a nosso email:
Sou conselheira e sou a favor das quotas, tanto que meu Suplente, o Edilson, está participando da Comissão Especial e faz a defesa e a votação - dou meu lugar a ele.
Admiro muito esse grupo Levante e, com certeza, ainda vou fazer um trabalho envolvendo o movimento de vocês!!!
Roseli
Eles, os índios!?
Por que vagas para indígenas na UFRGS?
O simples fato de estas etnias terem
sobrevivido a toda a matança e negação de sua cultura pelos europeus e seus
descendentes já faz com que tenham passado por um processo seletivo muito mais
severo que quaisquer provas de vestibular imagináveis. Sobrevivente desse
processo que exterminou centenas de etnias, os Guarani e os Kaingang, a custa
de lágrimas, vidas e sangue, sofrendo todos os tipos de preconceito, habitam
este país que, erguido sobre suas terras e seus mortos, chamaram Brasil. O
mínimo a ser feito é reconhecer a importância ética e imprescindível para esta
nação, o valor de suas tradições e o direito de tomar parte nas instituições
brasileiras, naquelas em que estes queiram participar.
A universidade para os indígenas
Historicamente as políticas da sociedade brasileira foram
formuladas em conluio com o quase total desconhecimento da riqueza sociocultural
dos povos originários habitantes deste território. É de senso comum a constante
reafirmação da atual inexistência dos
indígenas, ainda que, nos dias de hoje em lugares como o Mato Grosso do Sul e
no Tocantins, são muitas as ações para efetivá-la.
No Rio Grande do
Sul, muitos indígenas, desapossados de suas terras, vivem numa condição
degradante, sem espaço para a reprodução plena do seu modo de ser. Para
garantirem a sobrevivência das futuras gerações, está colocado a estas
populações o desafio de aprender como lidar com saberes que não são próprios de
sua tradição - jurídicos, lingüísticos, técnicos, etc – que poderiam
auxiliá-los em suas lutas por uma vida mais digna e plena da forma como estes
compreendem esta amplitude e dignidade.
Os indígenas para a
universidade.
Quando os indígenas observam algo no
mundo, eles o fazem de uma forma muito distinta da nossa, pois seus
condicionamentos culturais fazem com que percebam e pensem de um modo que lhes
é peculiar. Durante muito tempo os brancos viram a diferença em termos de
inferioridade; agora se sabe que aquela inferioridade não estava no diferente em si, mas sim nos olhos e nos
constrangimentos culturais daqueles que observavam.
Os povos ameríndios são também
portadores de sabedorias milenares que vão da ecologia, passando pelos saberes
políticos, medicinais e outros, relacionados
a suas formas lingüísticas: a sua eloqüência e oralidade. Os
índios, na universidade, certamente contribuirão para a diversificação e
ampliação do conhecimento científico, de maneiras que no momento só podemos
imaginar: Basta que não cometamos a injustiça de avaliá-los por nossas medidas,
por saberes que são tão desconhecidos para eles quanto as línguas deles o são
para os nossos ouvidos.
A diversidade certamente fará
muito bem à universidade!! Mobilize-se pelas vagas para
indígenas e cotas para negros na UFRGS já!!
Publicado no website da Universidade de Brasília em 20/06/2007
Para socióloga da etnia indígena Kaingang, políticas públicas de afirmação étnica só serão efetivas quando Estado e a sociedade brasileira compreenderem sua real importância
Das 5,8 milhões de pessoas formadas
nas universidades apenas 0,1%
é de origem indígena.
Pai de uma universitária matriculada em Direito e Nutrição, o índio Xavante Jeremias Tsibödöwapre, tem severas críticas à atuação do Ministério da Educação (MEC) no que diz respeito à educação indígena. Ele afirma que, nas aldeias, o governo está omisso. “Nossos professores estão sem perspectiva de melhorar a educação e o MEC deveria estar presente lá, na ponta, porque nossas comunidades são as maiores prejudicadas”, destaca. O manifesto foi feito na Audiência Pública sobre a Ausência de Políticas Públicas Efetivas para a Educação Superior Indígena, realizada na manhã de segunda-feira, 28 de novembro, no auditório da Escola Superior do Ministério Público da União em Brasília.
A queixa dele é reforçada pela socióloga Azelene Kaingang, da etnia indígena Kaingang. Ela considera que o Estado brasileiro precisa se reconhecer multicultural para que suas políticas contemplem todas as parcelas da população. “A política da educação superior precisa dialogar com as nossas diferenças também. Isso ajudará a evitar o processo de ‘embranquecimento’ das universidades e do saber”, ressalta. Na avaliação da socióloga, muitos dos problemas de abandono de cursos podem ser resolvidos com adaptações dos dois lados, tanto por parte dos indígenas quanto das instituições de ensino superior.

Para Azelene, políticas
devem contemplar
todas as raças
“Não somos só nós que precisamos nos preparar para acessar às universidades. Elas também precisam ser preparadas para nos entender sem preconceitos nem discriminação, respeitando nossos processos internos e nosso tempo individual”, alerta. Azelene denuncia que muitos professores não entendem os estudantes indígenas, que acabam sendo discriminados por conta dessa convivência. O resultado desse processo é apresentado por Francisca Novantino, representante indígena no Conselho Nacional de Educação.
INTERESSES - De acordo com Francisca, os índios conseguiram, em 2000, 100 vagas para instituições de ensino superior federais e particulares. Dessas, apenas 50 foram ocupadas e somente 15 estudantes concluíram seus cursos. “A maioria dos desistentes alega ter vivenciado problemas tanto de preconceito quanto de cobrança de retorno por parte de suas etnias”, revela.
Francisca considera que as iniciativas do Ministério da Educação (MEC) são tímidas e que apenas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva se começou a discutir a inserção indígena no ensino superior. “Durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, tentamos levantar essa discussão, mas eles só queriam saber da educação básica. Temos uma grande demanda não garantida”, reclama.
Ela afirma que as comunidades desejam a formação em áreas variadas (88% em Ciências Humanas e Sociais; 8% em Ciências Biológicas e da Saúde e 4% em Exatas) para que esses indígenas formados possam atuar na defesa de suas etnias. “Precisamos de dispositivos para garantir que quem entrar o fará pelo critério coletivo e não individual. Não queremos apenas ter índios formados, mas atuantes para melhorar a vida de suas tribos”, reforça Francisca.
Fonte: UnB Agência. Fotos: Camila Martins/UnB Agência.
Publicado na web-page Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira em 16/09/2003
O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) tem revelado um quadro da qualidade da educacional nada confortador e um aumento das desigualdades no sistema de ensino, especialmente a racial. A primeira constatação é que os alunos negros são excluídos prematuramente da escola. A participação das crianças negras na última série do ensino médio representa a metade da registrada na 4a série do ensino fundamental, enquanto os brancos, que somam 44% dos alunos ao final do primeiro ciclo do fundamental, totalizam 76% na 3a série do ensino médio.
Os alunos negros que sobrevivem na escola são vítimas de uma sistemática queda de desempenho. Entre 1995 e 2001, a diferença no desempenho escolar na prova de leitura dos estudantes negros, em relação aos brancos, aumentou de 20 para 26 pontos. O estudo mostra, ainda, que, em leitura, na 4a série do ensino fundamental, 67% dos estudantes negros apresentam desempenho classificado como “crítico” e “muito crítico” contra 44% de alunos brancos. Seríamos tentados a entender a diferença de desempenho entre brancos e negros como resultado de um fenômeno de longa duração – a inserção desigual e discriminada das populações negras na sociedade nacional, após a abolição da escravidão. Certamente, há uma estreita relação entre a pobreza (econômica e educacional) e a percepção e representações sociais sobre a cor do povo brasileiro.
No entanto, os dados revelam que, mesmo entre estudantes de escolas particulares, portanto com níveis socioeconômicos similares, o desempenho entre brancos e negros não é igual. Na 4a série, em Língua Portuguesa, alunos negros alcançam uma pontuação de 179, na escala de desempenho, e os brancos de 228 pontos.
Ainda que insistíssemos em uma explicação centrada nas desvantagens historicamente acumuladas pelas famílias negras, um certo déficit de “capital cultural” expresso pela baixa escolaridade de bisavós, avós e pais, teríamos grande dificuldade de entender os dados do Saeb relativos à escolaridade da família. Alunos brancos, matriculados na 4a série (rede pública e particular) – filhos de mães com escolaridade até a 8a série do ensino fundamental – obtiveram média de desempenho de 175 pontos em Matemática, contra uma média de 160 de estudantes negros filhos de mães com a mesma escolaridade. Essa diferença de 15 pontos entre as médias de desempenho aumenta para 38 quando comparamos brancos, com mães de escolaridade média ou superior, com alunos negros, com mães de mesma escolaridade.
Não há como reduzir o campo explicativo dessa desigualdade educacional às variáveis socioeconômicas. Certamente que elas são um componente importante do problema mas não o explica totalmente. O que salta à vista é a reprodução de condições hostis aos alunos negros nas escolas brasileiras que atuam permanentemente para o agravamento das diferenças de desempenho escolar desse segmento. É preciso enfrentar, sem hipocrisia, a constatação de que a escola não é tão eficaz para os negros quanto é para os brancos. Essa evidência define os contornos de um problema a ser diagnosticado e resolvido: as desigualdades raciais são especificamente responsáveis pelas desigualdades educacionais.
Muitas são as hipóteses a serem consideradas sem reservas e sem preconceitos. Devemos nos perguntar se os conteúdos e os métodos praticados nas escolas são compatíveis com as especificidades culturais e com os anseios de cidadania da população escolar negra. Os dispositivos legais em vigor indicam que não. A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Ministério da Educação definiu, nos Parâmetros Curriculares e nos Parâmetros em Ação, o tema transversal da diversidade cultural, pelo qual pretende atuar no sentido de dar um atendimento adequado às escolas para que possam praticar a pluralidade que compõe a cultura brasileira. Sabemos que essa diretriz é largamente ignorada nas práticas cotidianas das escolas no Brasil. É também significativo o reconhecimento governamental de que a história e a cultura negra no Brasil estão ausentes na formação dos cidadãos brasileiros e, por isso mesmo, promulgou a lei que tornou essas matérias obrigatórias em todas as escolas e em todos os níveis de ensino. Implementar essa legislação em vigor é um desafio que está sendo enfrentado pelo Ministério da Educação que conta, para tanto, com o apoio do Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares. A promoção da cultura negra nas escolas brasileiras é uma das ações prioritárias para o combate às desigualdades raciais e educacionais nas escolas, porquanto o conhecimento das diferenças traz consigo a possibilidade de um novo hábito de convívio, mutuamente respeitoso entre alunos de diferentes cores e culturas.
Para além de conteúdos e métodos, não podemos perder de vista as relações sociais dentro da escola e no seu entorno, nas quais se reproduzem práticas discriminatórias contra alunos negros, configurando um ambiente de hostilidade. É preciso investigar as relações entre professores e alunos, entre os alunos, entre as famílias e as escolas. Os estudos indicam que aí se reproduz um racismo difuso, silencioso e habitual, fundamentado na cristalização de representações negativas do estudante negro. Não é mais possível esconder que a expectativa do fracasso pesa como permanente suspeição contra o negro. Conclui-se, pois, que qualquer ação de enfrentamento da desigualdade educacional deve ser acompanhada de políticas eficazes de combate ao racismo.
* Carlos Henrique Araújo é diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep/MEC e Ubiratan Castro de Araújo é presidente da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura
Nós membros da sociedade brasileira, que lutamos contra o racismo e por uma sociedade mais justa, abaixo assinamos pela implementação das Cotas raciais e sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e que comece a vigorar já no vestibular de 2008, como reparação mínima aos anos de opressão. Nesta instituição em que há apenas dois professores negros, não há indígenas estudando e o acesso às pessoas de baixa renda é mais difícil; tendo em vista que concurso vestibular, da maneira que está, não é o método mais eficiente de avaliação e seleção.
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