Nazistas planejam recrutar quadros incitando ódio contra as cotas raciais

O site nazista brasileiro Valhalla 88, responsável pela disseminação de racismo, homofobia e anti-semitismo na internet, sugere a utilização da polêmica surgida com as políticas de cotas raciais, como conjuntura favorável para incitar o ódio contra os negros e recrutar novos adeptos entre a população secundarista e universitária.
 
No tópico "Propaganda do futuro para o Nacional-Socialismo" os mantenedores do site apresentam suas propostas para a ampliação de quadros e criação de propagandas nazistas: 70% delas visariam alimentar a revolta e o ódio em favor da derrubada do sistema enquanto o restante trataria da "questão racial e semita".
 
"as cotas raciais, por exemplo, são ótimas para nós, é um assunto que está deixando os Brancos indignados e que pode ser usado ao nosso favor (...) Não precisa ser declaradamente Nacional-Socialista, ou as pessoas o verão como um estranho, seja apenas mais um, um como a maioria. Provoque as pessoas com o intuito de fazê-las contestar as coisas à nosso favor".
 
No início da semana os arredores do campus central da universidade foram alvo de pichações racistas contrárias as cotas. Entre estas encontrava-se uma suástica. Sérios indícios apontam não ser este um caso isolado.
 
Em 2005 a reitoria abriu uma sindicância para investigar estudantes nazistas que estariam agindo dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sem qualquer punição efetiva. Tudo indica que neste momento os mesmos elementos estariam infiltrados no movimento contra as cotas raciais buscando formar novos adeptos entre os estudantes desta universidade.
 
A polícia está investigando o caso.
 
Para visitar o site nazista citado nesta reportagem clique aqui
 


Paim se diz indignado com atos racistas praticados no RS

Fonte: Agência Senado

O senador Paulo Paim (PT-RS) se disse nesta quarta-feira, 27, indignado com os atos que ele qualificou como racistas, praticados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que está debatendo a adoção de quotas raciais em seu vestibular. De acordo com Paim, há pichações no campus universitário ofendendo os negros. Durante seu discurso, Paim leu artigo publicado pelo jornalista Paulo Santana criticando o racismo.

- Demonstraremos toda a nossa solidariedade à Universidade e a nossa indignação contra a postura desses grupos nazistas, fascistas, diria, que estão envergonhando parte do povo gaúcho - disse Paim, referindo-se a visita que ele e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) planejam fazer ao reitor da UFRGS.

O senador gaúcho também lamentou os recentes casos de violência envolvendo jovens, como os casos dos estudantes que agrediram uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e de uma briga de torcedores no Rio Grande do Sul que terminou com a morte de um deles.


As Cotas Raciais

Por Paulo Santana, publicado originalmente no site da Zero Hora

De repente, terá aflorado a vocação racista gaúcha e brasileira nas pichações feitas em torno do Campus Central da UFRGS e no Orkut, com base na discussão sobre as cotas raciais para ingresso nas universidades?

As pichações são de uma violência verbal revoltante: "Negro, só se for na cozinha do Restaurante Universitário". "Voltem para a senzala".

E a mais sórdida frase racista que já li, no Orkut: "Eu não tenho culpa de ter nascido com a cor certa".

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Se eu estivesse indeciso sobre o mérito das cotas raciais, depois de ter lido essas frases me declararia inteira e definitivamente a favor delas.

Por isso só é que gostaria de saber se essas frases foram escritas mesmo por brancos. Se elas refletem mesmo o ódio e desprezo que são dedicados aos negros ou se foram postas no muro e na Internet apenas para garantir maior apoio às cotas raciais.

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Eu tendo a ser favorável às cotas raciais. Porque na Bahia 85% da população é constituída por negros. E freqüentam o Ensino Superior em torno de apenas 10% de negros. Se é assim na Bahia, pior deve ser nos outros Estados.

Isso é a exacerbação clara e manifesta contra uma raça, impedida de ter acesso ao progresso pessoal, profissional e social através dos séculos.

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Dir-se-á que a discriminação no ensino brasileiro não é racial, é social, os pobres não têm acesso a universidades públicas, negros e brancos, o que é verdade.

Na Bahia, a cota social resolveria o problema. Como a maioria arrasadora da população é negra, fatalmente com a cota racial os negros acabarão ingressando na universidade.

Mas e nos outros Estados, onde a maioria dos pobres é branca, como se poderia regenerar a passos largos a discriminação ancestral contra os negros? Nunca se daria.

Acabaria acontecendo que mais brancos ingressassem nas universidades gratuitas: dessa vez os brancos pobres.

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O ideal é que se fizesse a cota racial junto com a cota social. Os negros, discriminados não só na universidade como nos empregos, poderiam então aos poucos obter a revanche histórica contra a opressão amassante que sempre sofreram concorrendo com as duas chances.

É muito difícil compreender que se deva dar um privilégio aos negros para ingresso no Ensino Superior público. Porque é muito difícil de entender que haja racismo no Brasil.

Pelo simples fato de que a maioria larga dos racistas não sabe que é racista, não tem consciência de que discrimina. Só se conhecerá a si própria no dia que a filha vier anunciar que está namorando um negro. Como é muito raro uma branca namorar um negro, essa falta de consciência vai perdurando pelos séculos.

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O que tem de ser eliminado é o privilégio gritante das camadas economicamente mais altas da população, que vêm tendo através dos tempos a exclusividade para ingresso nas universidades públicas. Um monopólio dilacerante para os pobres.

Se na universidade pública têm assento quase que privativo as elites, nas privadas nem se fala. O que se cobra hoje de mensalidades nas universidades privadas torna completamente proibitivo aos pobres acessá-las.

Temos então dois círculos de inferno para os pobres e os remediados: o âmbito escolar público e o privado.

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O certo talvez seja que a universidade pública fosse destinada em metade de suas vagas para os menos favorecidos economicamente, entre eles os negros, mas também sem deixar de favorecer os brancos e os mestiços sem poder aquisitivo.

É que foi tão gritante através dos tempos o preconceito contra os negros, salta tanto aos olhos que os negros não freqüentam nenhum dos andares mais altos da camada social, econômico-financeira e cultural, que grita aos céus uma igualdade para eles.

E a única forma da grande revanche tem de se dar no ensino gratuito.

Se eu tivesse certeza de que essas frases pérfidas que estão sendo pichadas nos muros da cidade e escritas no Orkut contra os negros são mesmo de autoria de brancos racistas, não teria mais qualquer dúvida de que é imperiosa, imprescindível e redentora a instituição das cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.

Seria o primeiro grande passo para virar esse jogo desigual em que os negros até agora, desde a fundação do Brasil, só têm direito a perder.


Ameaça a conselheiros ou ameaça a privilégios?

Resposta do Levante Popular da Juventude a acusação de ameaça física aos conselheiros do CONSUN no jornal Zero Hora.

  Nós, militantes do Levante Popular da Juventude , manifestamos nosso absoluto repúdio à manipulaçao grotesca operada pelo Jornal Zero Hora  com o objetivo claro de transformar nossa disposiçao em debater com os Conselheiros da UFRGS sobre as cotas em uma ameaça de agressão aos mesmos.
 
A reportagem do dia 22 de junho da ZH, sobre a suposta coação que os conselheiros da universidade estariam sofrendo, é o ápice de um processo de manipulação orquestrado pela mídia contrária as cotas e aos movimentos sociais. Este trabalho de distorção da verdade começou há quase dois anos com o ocultamento da mobilização dos segmentos da sociedade favoráveis as cotas . No último período, a grande mídia, além de velar as mobilizações em defesa da democratização da universidade, tem superdimensionado as ações políticas do embrionário "movimento" anti-cotas.

Por último, a reportagem acima citada acusa o Levante  da Juventude de estar coagindo os conselheiros da UFRGS através de mensagens aeletrônicas. Para sustentar tal disparate, ZH descontextualiza uma frase do e-mail enviado por nossa organização no qual unicamente nos colocavamos a disposição dos conselheiros para levar a eles informações sobre a proposta de cotas na UFRGS. A mínima leitura do próprio quadro da ZH, na página 39 da edição de 22/06/07, onde aparece apenas parte de nossa mensagem, já mostra que nós estavamos claramente colocando-nos à disposição para levar o debate e as informações a todos os conselheiros que o desejassem, no local em que escolhessem. Por isso indicamos "saber onde trabalhavam" (dado público, pois são funcionários da Universidade Federal) e que poderíamos "acompanhá-los onde fosse preciso", ou seja, levar informações àqueles que não vieram às dezenas de debates realizados sobre as cotas na UFRGS, no local que estes determinassem. Este foi o sentido único e claro da mensagem.

Evidência de que o e-mail enviado não continha ameaças aos destinatários é a resposta que alguns conselheiros enviaram aceitando o convite ao diálogo e inclusive elogiando a nossa atidude de abertura ao debate. [Para que não pairem dúvidas sobre o conteúdo do e-mail anexamos a esta nota a mensagem na integra juntamente com a resposta emblemática de uma das conselheiras que o recebeu.]

O debate e a troca de idéias que nos propomos a realizar com os conselheiros é um processo inerente às sociedades democráticas do qual ninguém precisa ter medo. Só tem medo do debate quem sabe que suas posições só se sustentam por seu poder econômico e não pela justiça de suas propostas.

Além de produzir acusações infundadas, é curioso que este periódico tenha concedido espaço na matéria apenas a um professor sabidamente anti-cotas sem dar voz ao contraditório, atitude completamente contrária às regras elementares do jornalismo democrático.

A capacidade de distorção dos fatos se torna ainda maior quando se sabe que dentre os coordenadores do movimento anti-cotas na UFRGS existem pessoas como Gabriel Marchesi, que já se declarou fascista e admitiu ter convocado pessoas identificadas com a causa Nacional-Socialista no Brasil, para pensar, "juntos, uma maneira eficaz de deter esses odiosos vermes judeus.", publicado em reportagem divulgada na Folha de São Paulo em 08 de junho de 2005, fato negligenciado pela mídia gaucha. Ou seja, enquanto a Zero Hora necessita manipular fatos para desconstituir o movimento pró cotas, simplesmente ignora fatos concretos e públicos sobre o caráter de alguns integrantes do grupo que rejeita as ações afirmativas e que demonstram as verdadeiras  intenções e motivações de um segmento dos promotores da campanha contra cotas.

Sabemos que por trás desta reportagem há uma campanha difamatória permanente da grande mídia contra os movimentos que lutam pela igualdade e pelos direitos humanos. Mas a tática de deturpação da verdade empreendida por este periódico, com tal manipulação grotesca contra o Levante da Juventude assemelhasse claramente aos método dos defensores da ditadura quando acusavam de terrorismo aqueles que lutaram pela democracia.

Reforçamos, portanto, nosso posicionamento de abertura ao debate com todos aqueles que se dispuserem a tanto e rejeitamos qualquer tentativa anti-democrática de desqualificação dos setores da sociedade que historicamente lutam por uma sociedade menos excludente.

Não nos intimidaremos com ataques vís aos nossos movimentos. Sabemos que esta não é a primeira nem a última vez que nossos movimentos são atacados covardemente pela grande mídia. Mas também sabemos que quando os de cima tremem, é porque os de baixo se levantaram. E certamente porque acertaram no seu ponto fraco. A disposição democrática ao debate franco de idéias e fatos.

Com certeza se nosso trabalho gerou tamanha indignação por parte das forças conservadoras é porque, também graças a ele, estamos mais perto de ver a UFRGS democratizada através das cotas raciais e sociais.


                                                                                                        PÁTRIA LIVRE!
                                                                                                       VENCEREMOS!!

                                                                             
    Levante Popular da Juventude

 

Cópia integral da mensagem enviada aos Conselheiros da UFRGS:

"Cara conselheira, somos do Levante Popular da Juventude, organização onde se articulam os jovens de diversos movimentos populares (como o Movimento dos Desempregados- MTD,  Pastorais de Juventude, Catadores, MST, Resistência Popular, Pequenos Agricultores- MPA, Atingidos por Barragens-MAB, Via Campesina, etc).

Queremos debater com você sobre a aprovação das Cotas na UFRGS no dia 29 de junho. Nos colocamos a inteira disposição para dialogar com você sobre a proposta, de forma a dirimir todas as tuas dúvidas para que possas votar a favor da proposta da Comissão Especial com muita tranquilidade. Sabemos seu nome e onde você trabalha. Por isso, podemos acompanhá-lo como for necessário.

Se desejar, podemos fazer uma conversa pessoalmente, ou trocarmos questões por e-mail mesmo. Apenas insistimos que, no que depender de nós, não evitaremos esforço algum no sentido de dirimir todas as tuas dúvidas sobre a proposta de cotas.

Não falaremos demais aqui. Ficaremos no aguardo de sua resposta sobre se já tem alguma posição definida, se tem dúvidas ou temas que ainda gostaria de aprofundar. Por hora, apenas gostaríamos de dizer que:

1. Todos reconhecemos que a UFRGS, como uma universidade federal,  hoje não reflete a sociedade brasileira. 80% dos alunos brasileiros estudam em escolas públicas, mas há cursos na UFRGS como medicina, direito, odontologia, engenharia da computação, psicologia, biomedicina, nutrição, etc, em que menos de 1% dos alunos provém de escolas públicas. Por outro lado, 48% da população brasileira é negra, mas menos de 2% dos estudantes da UFRGS o são. Não há nenhum estudante indígena em toda a universidade.

2. Isso mostra a necessidade de Ações Afirmativas urgentes para mudar este quadro. Mas não precisamos inventar a roda para achar as soluções. O movimento anti-racismo no Brasil já estuda sobre isso há mais de 30 anos e já apontou as melhores soluções que já se encontrou até hoje: políticas públicas de combate às raízes do racismo (como o estudo da história da África e dos negros no Brasil que finalmente foi aprovada em 2005), políticas de combate a pobreza (visto que 83% dos pobres do Brasil são negros) mas, como medida emergencial COTAS para negros e indígenas aonde quer que estas populações estejam, recorrentemente, subrepresentadas. As cotas não são políticas novas. Foram usadas para combater desigualdades de gênero (como para mulheres em disputas eleitorais) e para portadores de necessidades especiais, entre outros. As cotas não são favor nem empurrarão para dentro da universidade pessoas incapazes. Quem necessita de cotas é a própria universidade, que tem um número tão ínfimo de vagas para sua demanda e um critério de definição dos aprovados tão questionável, que necessita definir para si uma cota de determinads populações que passarão a compô-la, desde que qualificadas, as quais, sem tais cotas, permanecerão fora da universidade. As cotas servirão para a própria universidade medir seu grau de inclusão social e ir ampliando sua diversidade interna de forma qualificada.

Por tudo isso, nós do Levante da Juventude, que há 3 anos atrás eramos contra cotas, hoje exigimos Cotas Raciais e Sociais na UFRGS, já. Nós fomos atrás de informações, estudos, e aprendemos muito. E, não a toa, defendemos na Comissão Especial uma proposta de Cotas de 60%. Sendo 40% sociais (medido por renda, como na UERGS) e 20% raciais. Mas na negociação com a Comissão Especial eleita pelo CONSUN fomos recuando na negociação até chegarmos ao limite de 20%+20% (sendo sociais por escola pública e não renda) em 2010, 15%+15% em 2009 e 10%+10% em 2008. Por isso, não aceitaremos menos do que isso. Muita injustiça ainda permanecerá dessa forma, mas já será um avanço para a universidade ao menos esta proposta. Uma negativa neste sentido seria uma reafirmação de que a UFRGS deseja permanecer sendo a universidade mais segregada do país que ocupa, simultaneamente, a piores posições nos indíces de desigualdades sociais e de segregração racial no mundo. Por isso, não exitaremos em fazer o que for necessário para garantir esta aprovação. Inclusive por sabermos que mais de 30 universidades já adotaram tais políticas pelo Brasil a fora e apenas ganharam com isto.

A UFRGS não pode alienar-se destas informações e agir como um avestruz. Até porque, fora do buraco onde os Conselheiros poderiam esconder seus rostos estão milhares de pessoas sedentas por justiça.

Reafirmamos que ficaremos aguardando para receber sua resposta indicando sua posição neste debate, e nossa total disposição em apresentar, detalhada e gentilmente as justificativas que nos levam a apoiar proposta da Comissão Especial.

                  Atenciosamente,
                  Levante Popular da Juventude.
                            
                                          18 de setembro de 2007"


Resposta integral da conselheira do Consun Roseli Pereira a nosso email:

Sou conselheira e sou a favor das quotas, tanto que meu Suplente, o Edilson, está participando da Comissão Especial e faz a defesa e a votação - dou meu lugar a ele.

Admiro muito esse grupo Levante e, com certeza, ainda vou fazer um trabalho envolvendo o movimento de vocês!!!

Roseli


Indígenas na UFRGS! Multiplicidade na Universidade!

Eles, os índios!?

Os índios Guarani, do tronco lingüístico Tupi-Guarani, e os Kaingang, do tronco lingüístico Jê, atualmente são os principais grupos indígenas presentes no sul do Brasil. Ambas as etnias estão entre as mais populosas do país: a etnia Kaingang soma ao todo 26.000 pessoas espalhadas por quatro diferentes estados; por seu turno, os Guarani chegam a mais de 36.000 pessoas. Existiam muitas outros grupos indígenas no cone sul da América Latina nos tempos do contato, no entanto a maioria destes foram exterminados: povos como os Charrua, os Minuanos, os Tapes e os Patos foram vítimas da escravização e do genocídio potencializado por doenças e propagado por guerras contra os invasores de suas terras, não sobreviveram como os Guarani, e os Kaingang à violência estrutural da máquina colonial. Estes últimos resistiram às ameaças do período colonial para enfrentarem os terrores do pós-independência no qual comunidades inteiras foram assassinadas ou arrancadas de suas terras através de um processo de branqueamento genocida que "traria o progresso” patrocinado pelo Segundo Reinado.
 
Ao fim de quase quinhentos anos do contato, os Guarani e Kaingang continuam sendo sumariamente marginalizados diante de suas formas culturais. Ainda hoje a imensa maioria das pessoas de nossa sociedade desconhece suas lutas e suas histórias, assim como sua existência para além daquele índio histórico congelado no tempo, ainda que eles não queiram crer que sejamos os mesmos portugueses que desceram daquelas caravelas em 1500 ou os mesmos africanos que, tempos depois, eram vergonhosamente trazidos em correntes por aqueles.
 
Orgulhosos de suas línguas, de seus costumes e tradições milenares, tanto os Kaingang quanto os Guarani habitam suas aldeias e, por vezes as cidades. São homens, mulheres e crianças que fazem parte de uma sociedade pluriétnica que somente agora, depois de quinhentos anos de contato, começa a compreender a riqueza e a profundidade de seus saberes ancestrais para além dos preconceitos e superficialidades do racismo.

 

Por que vagas para indígenas na UFRGS?

O simples fato de estas etnias terem sobrevivido a toda a matança e negação de sua cultura pelos europeus e seus descendentes já faz com que tenham passado por um processo seletivo muito mais severo que quaisquer provas de vestibular imagináveis. Sobrevivente desse processo que exterminou centenas de etnias, os Guarani e os Kaingang, a custa de lágrimas, vidas e sangue, sofrendo todos os tipos de preconceito, habitam este país que, erguido sobre suas terras e seus mortos, chamaram Brasil. O mínimo a ser feito é reconhecer a importância ética e imprescindível para esta nação, o valor de suas tradições e o direito de tomar parte nas instituições brasileiras, naquelas em que estes queiram participar.

 

A universidade para os indígenas

Historicamente as políticas da sociedade brasileira foram formuladas em conluio com o quase total desconhecimento da riqueza sociocultural dos povos originários habitantes deste território. É de senso comum a constante reafirmação da atual inexistência dos indígenas, ainda que, nos dias de hoje em lugares como o Mato Grosso do Sul e no Tocantins, são muitas as ações para efetivá-la.

No Rio Grande do Sul, muitos indígenas, desapossados de suas terras, vivem numa condição degradante, sem espaço para a reprodução plena do seu modo de ser.  Para garantirem a sobrevivência das futuras gerações, está colocado a estas populações o desafio de aprender como lidar com saberes que não são próprios de sua tradição - jurídicos, lingüísticos, técnicos, etc – que poderiam auxiliá-los em suas lutas por uma vida mais digna e plena da forma como estes compreendem esta amplitude e dignidade.

 

Os indígenas para a universidade.
 
Quando os indígenas observam algo no mundo, eles o fazem de uma forma muito distinta da nossa, pois seus condicionamentos culturais fazem com que percebam e pensem de um modo que lhes é peculiar. Durante muito tempo os brancos viram a diferença em termos de inferioridade; agora se sabe que aquela inferioridade não estava no diferente em si, mas sim nos olhos e nos constrangimentos culturais daqueles que observavam.
 
Os povos ameríndios são também portadores de sabedorias milenares que vão da ecologia, passando pelos saberes políticos, medicinais e outros, relacionados a suas formas lingüísticas: a sua eloqüência e oralidade. Os índios, na universidade, certamente contribuirão para a diversificação e ampliação do conhecimento científico, de maneiras que no momento só podemos imaginar: Basta que não cometamos a injustiça de avaliá-los por nossas medidas, por saberes que são tão desconhecidos para eles quanto as línguas deles o são para os nossos ouvidos.

A diversidade certamente fará muito bem à universidade!! Mobilize-se pelas vagas para indígenas e cotas para negros na UFRGS já!!


”O Brasil precisa ser multicultural”

Publicado no website da Universidade de Brasília em 20/06/2007

Para socióloga da etnia indígena Kaingang, políticas públicas de afirmação étnica só serão efetivas quando Estado e a sociedade brasileira compreenderem sua real importância

 

 

Das 5,8 milhões de pessoas formadas

nas universidades apenas 0,1%

é de origem indígena.

 

Pai de uma universitária matriculada em Direito e Nutrição, o índio Xavante Jeremias Tsibödöwapre, tem severas críticas à atuação do Ministério da Educação (MEC) no que diz respeito à educação indígena. Ele afirma que, nas aldeias, o governo está omisso. “Nossos professores estão sem perspectiva de melhorar a educação e o MEC deveria estar presente lá, na ponta, porque nossas comunidades são as maiores prejudicadas”, destaca. O manifesto foi feito na Audiência Pública sobre a Ausência de Políticas Públicas Efetivas para a Educação Superior Indígena, realizada na manhã de segunda-feira, 28 de novembro, no auditório da Escola Superior do Ministério Público da União em Brasília.

A queixa dele é reforçada pela socióloga Azelene Kaingang, da etnia indígena Kaingang. Ela considera que o Estado brasileiro precisa se reconhecer multicultural para que suas políticas contemplem todas as parcelas da população. “A política da educação superior precisa dialogar com as nossas diferenças também. Isso ajudará a evitar o processo de ‘embranquecimento’ das universidades e do saber”, ressalta. Na avaliação da socióloga, muitos dos problemas de abandono de cursos podem ser resolvidos com adaptações dos dois lados, tanto por parte dos indígenas quanto das instituições de ensino superior. 

Para Azelene, políticas devem contemplar todas as raças

 

 

Para Azelene, políticas

devem contemplar

todas as raças

 

“Não somos só nós que precisamos nos preparar para acessar às universidades. Elas também precisam ser preparadas para nos entender sem preconceitos nem discriminação, respeitando nossos processos internos e nosso tempo individual”, alerta. Azelene denuncia que muitos professores não entendem os estudantes indígenas, que acabam sendo discriminados por conta dessa convivência. O resultado desse processo é apresentado por Francisca Novantino, representante indígena no Conselho Nacional de Educação.

INTERESSES - De acordo com Francisca, os índios conseguiram, em 2000, 100 vagas para instituições de ensino superior federais e particulares. Dessas, apenas 50 foram ocupadas e somente 15 estudantes concluíram seus cursos. “A maioria dos desistentes alega ter vivenciado problemas tanto de preconceito quanto de cobrança de retorno por parte de suas etnias”, revela.

Francisca considera que as iniciativas do Ministério da Educação (MEC) são tímidas e que apenas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva se começou a discutir a inserção indígena no ensino superior. “Durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, tentamos levantar essa discussão, mas eles só queriam saber da educação básica. Temos uma grande demanda não garantida”, reclama.

Ela afirma que as comunidades desejam a formação em áreas variadas (88% em Ciências Humanas e Sociais; 8% em Ciências Biológicas e da Saúde e 4% em Exatas) para que esses indígenas formados possam atuar na defesa de suas etnias. “Precisamos de dispositivos para garantir que quem entrar o fará pelo critério coletivo e não individual. Não queremos apenas ter índios formados, mas  atuantes para melhorar a vida de suas tribos”, reforça Francisca.

 Fonte:  UnB Agência. Fotos: Camila Martins/UnB Agência.


Desigualdade racial e desempenho escolar

Publicado na web-page Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira em 16/09/2003

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) tem revelado um quadro da qualidade da educacional nada confortador e um aumento das desigualdades no sistema de ensino, especialmente a racial. A primeira constatação é que os alunos negros são excluídos prematuramente da escola. A participação das crianças negras na última série do ensino médio representa a metade da registrada na 4a série do ensino fundamental, enquanto os brancos, que somam 44% dos alunos ao final do primeiro ciclo do fundamental, totalizam 76% na 3a série do ensino médio.

Os alunos negros que sobrevivem na escola são vítimas de uma sistemática queda de desempenho. Entre 1995 e 2001, a diferença no desempenho escolar na prova de leitura dos estudantes negros, em relação aos brancos, aumentou de 20 para 26 pontos. O estudo mostra, ainda, que, em leitura, na 4a série do ensino fundamental, 67% dos estudantes negros apresentam desempenho classificado como “crítico” e “muito crítico” contra 44% de alunos brancos. Seríamos tentados a entender a diferença de desempenho entre brancos e negros como resultado de um fenômeno de longa duração – a inserção desigual e discriminada das populações negras na sociedade nacional, após a abolição da escravidão. Certamente, há uma estreita relação entre a pobreza (econômica e educacional) e a percepção e representações sociais sobre a cor do povo brasileiro.

No entanto, os dados revelam que, mesmo entre estudantes de escolas particulares, portanto com níveis socioeconômicos similares, o desempenho entre brancos e negros não é igual. Na 4a série, em Língua Portuguesa, alunos negros alcançam uma pontuação de 179, na escala de desempenho, e os brancos de 228 pontos.

Ainda que insistíssemos em uma explicação centrada nas desvantagens historicamente acumuladas pelas famílias negras, um certo déficit de “capital cultural” expresso pela baixa escolaridade de bisavós, avós e pais, teríamos grande dificuldade de entender os dados do Saeb relativos à escolaridade da família. Alunos brancos, matriculados na 4a série (rede pública e particular) – filhos de mães com escolaridade até a 8a série do ensino fundamental – obtiveram média de desempenho de 175 pontos em Matemática, contra uma média de 160 de estudantes negros filhos de mães com a mesma escolaridade. Essa diferença de 15 pontos entre as médias de desempenho aumenta para 38 quando comparamos brancos, com mães de escolaridade média ou superior, com alunos negros, com mães de mesma escolaridade.

Não há como reduzir o campo explicativo dessa desigualdade educacional às variáveis socioeconômicas. Certamente que elas são um componente importante do problema mas não o explica totalmente. O que salta à vista é a reprodução de condições hostis aos alunos negros nas escolas brasileiras que atuam permanentemente para o agravamento das diferenças de desempenho escolar desse segmento. É preciso enfrentar, sem hipocrisia, a constatação de que a escola não é tão eficaz para os negros quanto é para os brancos. Essa evidência define os contornos de um problema a ser diagnosticado e resolvido: as desigualdades raciais são especificamente responsáveis pelas desigualdades educacionais.

Muitas são as hipóteses a serem consideradas sem reservas e sem preconceitos. Devemos nos perguntar se os conteúdos e os métodos praticados nas escolas são compatíveis com as especificidades culturais e com os anseios de cidadania da população escolar negra. Os dispositivos legais em vigor indicam que não. A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Ministério da Educação definiu, nos Parâmetros Curriculares e nos Parâmetros em Ação, o tema transversal da diversidade cultural, pelo qual pretende atuar no sentido de dar um atendimento adequado às escolas para que possam praticar a pluralidade que compõe a cultura brasileira. Sabemos que essa diretriz é largamente ignorada nas práticas cotidianas das escolas no Brasil. É também significativo o reconhecimento governamental de que a história e a cultura negra no Brasil estão ausentes na formação dos cidadãos brasileiros e, por isso mesmo, promulgou a lei que tornou essas matérias obrigatórias em todas as escolas e em todos os níveis de ensino. Implementar essa legislação em vigor é um desafio que está sendo enfrentado pelo Ministério da Educação que conta, para tanto, com o apoio do Ministério da Cultura, por meio da  Fundação Cultural Palmares. A promoção da cultura negra nas escolas brasileiras é uma das ações prioritárias para o combate às desigualdades raciais e educacionais nas escolas, porquanto o conhecimento das diferenças traz consigo a possibilidade de um novo hábito de convívio, mutuamente respeitoso entre alunos de diferentes cores e culturas.

Para além de conteúdos e métodos, não podemos perder de vista as relações sociais dentro da escola e no seu entorno, nas quais se reproduzem práticas discriminatórias contra alunos negros, configurando um ambiente de hostilidade. É preciso investigar as relações entre professores e alunos, entre os alunos, entre as famílias e as escolas. Os estudos indicam que aí se reproduz um racismo difuso, silencioso e habitual, fundamentado na cristalização de representações negativas do estudante negro. Não é mais possível esconder que a expectativa do fracasso pesa como permanente suspeição contra o negro. Conclui-se, pois, que qualquer ação de enfrentamento da desigualdade educacional deve ser acompanhada de políticas eficazes de combate ao racismo.

 * Carlos Henrique Araújo é diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep/MEC e Ubiratan Castro de Araújo é presidente da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura


Ao Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Nós membros da sociedade brasileira, que lutamos contra o racismo e por uma sociedade mais justa, abaixo assinamos pela implementação das Cotas raciais e sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e que comece a vigorar já no vestibular de 2008, como reparação mínima aos anos de opressão. Nesta instituição em que há apenas dois professores negros, não há indígenas estudando e o acesso às pessoas de baixa renda é mais difícil; tendo em vista que concurso vestibular, da maneira que está, não é o método mais eficiente de avaliação e seleção.

Assine nosso abaixo assinado on-line

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